terça-feira, 17 de novembro de 2015

Relendo O Drible

(spoilers, inevitavelmente)

Vale dizer em primeiro lugar (me repetindo de outros posts) que eu nunca acreditei naquela história de que estava faltando na literatura brasileira o Grande Romance sobre o Futebol. Onde estaria o grande romance francês sobre o ciclismo, o grande romance australiano sobre o rugby, o grande romance russo sobre o hockey (logo eles que deram tanta importância ao esporte durante a guerra fria), ou o grande romance americano sobre o baseball?

(Curiosamente, existe um livro chamado The Great American novel, do Philip Roth, que é justamente sobre baseball, mas ninguém o coloca entre suas melhores obras. Alexandre Soares Silva fez o lembrete uns tempos atrás que o Delillo também tem um romance sobre esporte, End zone, mas igualmente é um livro praticamente esquecido )

Por que seria a literatura brasileira, tão mais fraquinha do que a russa, a americana, ou a francesa a primeira a preencher essa lacuna sobre grande narrativa sobre esporte? Sequer existem tantos filmes de esportes que tenham grande apelo para além dos entusiastas daquela atividade; creio que a única exceção seja o boxe (Rocky, Million Dollar baby, etc), que conta com sua brutalidade inerente como grande vantagem para seu lado: nada como um pouco de violência para colocar um pouco de sentido e emoção nas coisas.

Argumenta-se que no nosso caso o futebol não é apenas o esporte favorito do país, que a relação do Brasil com ele é mais profunda do que a de outros países, que estrangeiros ficam chocados pela forma como é da expectativa de todos que não exista expediente de nada não-emergencial durante as partidas da seleção, e que essa profundidade maior seria o suficiente para propiciar a produção dessa narrativa Que Desse Conta da Experiência Nacional.

Um dos problemas estruturais na questão é o tanto que o esporte constrói por si só sua narrativa completa e perfeita, com protagonista e antagonista (invertendo de acordo com o time escolhido), disputas, momentos dramáticos, vitórias e derrotas quase sempre inequívocas, enquanto na literatura moderna é a equivocidade ou a incerteza que frequentemente fundamenta o poder estético. O motor principal da produção de sentido no esporte tende a ser não a confluência de fatores complexos como acontece em um bom romance, e sim a demonstração de poderio físico (seja força, agilidade, o que seja), ou união perfeita de muitos indivíduos em coreografia perfeita, improvisada. O próprio Sérgio Rodrigues comenta isso em um post de seu blog: que romance se safaria do sentimentalismo barato de um Pelé moleque ao ver as lágrimas do pai com a derrota brasileira de 1950 prometendo que ganharia a copa para o país e indo lá oito anos depois e ganhando? Coisa de email motivacional que tias mandam pra todo mundo sem saber que só serve pra deixar mais deprimido quem tá precisando.

Minha aposta, portanto, era de que esse romance nunca viria a existir. Talvez fosse uma aposta ranzinza, já que eu nem sou tão fã de futebol assim (acompanho esporadicamente as partidas dos times nacionais, pois como resistir o jogo imaginário de nações inteiras brigando entre si), e também gosto de ser meio do contra, falando que a literatura não funciona por preenchimento de lacunas pré-imaginadas, que nenhum bom romance é realmente sobre uma coisa só. Eu estava errado, ou pelo menos parcialmente errado, pois é sem dúvida nenhum disparate dizer que o romance do Sérgio Rodrigues é o grande romance brasileiro sobre o futebol. Não li todos, ou até arriscaria a estimativa que não li nenhuma obra ficcional que fale mesmo de futebol que não os ocasionais textos do Sérgio Sant’Anna que abordam o esporte, mas quem sabe não é uma aposta desvairada dizer algo que pudesse minimamente competir com esse romance teria recebido algum destaque nessa comunidade de leitores ansiosa para poder preencher esse vazio tão claramente definido.

Mas eu acho que O Drible é bem mais do que isso, e é exatamente com essa motivação que fui reler o livro e escrevo agora esse post.

Pra quem não sabe, meu mestrado (foi mal) acabou por tratar a literatura brasileira numa abordagem meio megalomaníaca, que tomava o Formação, do Cândido, falando de Arcadismo e Romantismo, emendando com o Literatura como Missão, do Sevcenko (deusotenha), pra falar da virada do século (realismo e “pré-modernismo”) e o Lafetá e Bueno e outros textos soltos pra falar do Modernismo, para construir um panorama da literatura brasileira desde seu início, pegando a questão do “empenho” colocada pelo Cândido como central. É uma dissertação longa, e o resumo apressado dela é também longo [link: http://etudeslusophonesparis4.blogspot.com.br/2014/06/auge-e-derrocada-do-empenho-literario.html ], mas o resumo do resumo do negócio é: se tende a ser normal o escritor falar sobre seu mundo circundante, e no mundo circundante meio porcaria que é o Brasil (pelos milhares de problemas que sempre tivemos em nos organizarmos com um mínimo de competência ao tentar constituir uma sociedade decente, cidadã) o escritor brasileiro de várias épocas diferentes se viu repetidas vezes no papel de denunciador de mazelas e intérprete completo da realidade nacional.

O objeto da dissertação era a literatura do período da ditadura militar, e eu defendo que em nenhum outro momento a questão do engajamento do intelectual foi tão forte. Se antes era possível uma discussão demorada e meio inútil a respeito de qual seria o problema mais urgente do país, depois da queda de Goulart e o estabelecimento de um regime violento e autoritário e radicalmente ilegítimo foi rapidamente estabelecido um consenso que abarcava quase todos os intelectuais: a ditadura precisava acabar se o país era para sair desse buraco eterno.

(já já chego no drible)

Acabou a ditadura, e o país parecia mais afundado do que nunca no buraco. As decepções em sequência da redemocratização (nas palavras do romance, “...desilusão que logo ia se revelar a fibra mais resistente do tecido democrático”) tiravam o brio de qualquer crítico acostumado a ter como oposição a opressão desabrida, a vilania declarada de um governo absurdamente imposto (e não a vilania democraticamente legitimada). O intelectual estava acostumado a tacar pedra (geralmente em voz baixa, por medo de aparecer depois só na lista de sumidos) se viu obrigado a tecer críticas mais complexas do que “torturar é errado” e “democracia é o caminho”, e, claro, talvez mais que tudo, lidar com o desgosto cotidiano que é viver sob os frutos eleitorais da tal democracia de um eleitorado monstruosamente desinformado.

Não havia como essa decepção não ser sentida no campo literário. Os romances-denúncia (dos estúpidos aos brilhantes) não tinham mais seu assunto principal, de pertinência garantida, e mesmo em meio a tantas obras intelectuais contrárias à ditadura o fim do autoritarismo, a passagem de poder ao mundo civil, se deu de maneira tão distante quanto a transferência de chapéu de maioral entre generais, ignorando os anseios demoradamente destilados pelos intelectuais durante as décadas de semi-mordaça. O poder de volta com os civis, continuaria a desigualdade e a miséria que a princípio dependiam encarniçadamente da ausência da democracia para se manter: se o sistema prejudica a maioria, como que a maioria tendo alguma voz institucionalizada, pelo voto, optaria por manter o sistema? Pensar tanto tempo a respeito do país quando as decisões todas são tomadas partindo principalmente na disputa de interesses e não de interpretações? Qual contribuição um refinado intérprete nacional pode trazer para uma partilha de propina? O que Eduardo Cunha vai querer saber de Iracema versus Macunaíma, tirando talvez a disponibilidade dos respectivos domínios de internet?

Os romances brasileiros das últimas décadas, em sua maioria, abandonaram o tema nacional. Abordam, inevitavelmente, a experiência de existir no Brasil, como qualquer obra literária vai fazer (até mesmo uma obra passada em Marte há de ser lida levando em consideração a origem do autor), mas não há mais a ambição de tratar do país. Obras contemporâneas engajadas, como Habitante Irreal, de Paulo Scott, tendem a selecionar questões específicas em vez de se pretender qualquer como entendimento (e “solução”) universal, capaz de dar conta do todo brasileiro. Não coloco isso como necessariamente um defeito, não acho que o romancista brasileiro necessariamente perde ao tirar Raízes do Brasil do seu top 5 de textos balizadores de sua produção para colocar, sei lá, Beckett ou Barthelme ou o que valha. No final da última página o que vale é a qualidade da construção do texto e do entendimento de mundo, seja orientado com fronteiras geopolíticas/culturais em mente ou não.

O Drible é exceção (aeee, chegou, com atraso mas chegou). O Drible é um romance nacional, no sentido de ter a Nação como uma de suas questões principais, sem nem descambar para o constrangimento de comparar a paixão pelo esporte no Brasil com a existente em outros países. Toma o país para discussão com uma mistura incrível de fascínio e desprezo, interpreta várias décadas da nossa história com contundência surpreendente em um número até magro de páginas. Um romance de amplitude condensada, uma concisão forte e natural, sem o quê maníaco dos minimalistas. E, ponto importante, é um canto conscientemente composto para garganta rouca, salvando-se da armadilha da nostalgia: o romance nacional impressionantemente ressuscitado pelo cientista que desafia a natureza, maluco porém ciente que sua criatura só vive enquanto durar a tempestade por ele conjurada.

Não coloco isso aqui como grande achado interpretativo meu; qualquer leitor que não tenha pulado por algum exercício bizarro várias páginas do livro vai se deparar com as várias cenas de Murilo Filho descrevendo sua interpretação sobre o país, a forma como a transmissão radiofônica do esporte conseguiu construir uma união no país por meio do time em disputa, a importância da limitação da mídia para o narrador em fala rápida suprisse com superlativos qualquer realidade manquejante que presenciasse naquele momento:

“Logo discorria sobre o papel desempenhado pela conjugação de futebol com rádio na história do Brasil, tal mágica tendo consistido, segundo sua teoria, na fabricação das toneladas de argamassa necessárias para colar os cacos de um país gigantesco que até aquele momento não era bem um país, mas uma vastidão de terra dividida entre uns poucos proprietários que se distinguiam em partes iguais pela ganância e pela indiferença às condições de vida das multidões que trabalhavam para eles, pouco lhes importando que estudassem ou deixassem de estudar, que tivessem casas com redes de esgoto ou cagassem no mato, que vivessem ou morressem – no caso dos pretos, que teimavam em se reproduzir feito ratos no esgoto, os donos da terra achavam melhor que morressem mesmo, o que certamente fariam se tivessem um mínimo de autorrespeito. (p. 59)

(...) a dívida do nosso futebol é pelo menos tão grande com o gongorismo dos narradores também. (...) Sem a nossa vocação doentia para a metáfora bombástica, o papo furado, o causo inverossímil, a gente não teria chegado tão longe. Mais de noventa por cento do público só tinha acesso ao futebol pelo rádio, e no rádio qualquer pelada chinfrim disputada em câmera lenta por perebas com barriga d’água ficava cheia de som e fúria. A cada cinco minutos os narradores faziam um Zé-mané qualquer aprontar feito de deus do Olimpo. Claro que esse descompasso entre palavras e coisas era inviável a longo prazo, não tinha como se sustentar. E como obrigar a narração radiofônica a ficar sóbria estava fora de questão, restava reformar a realidade. Foi assim que o futebol brasileiro virou o que é: em grande parte por causa do esforço sobre-humano que os jogadores tiveram que fazer para ficar à altura das mentiras que os radialistas contavam”(p.61)

“a diferença entre vitória e derrota sempre teve muito de fortuito no futebol, isso explica as crendices no oculto (...) a medida de caos que nunca deixa de reinar em campo mesmo quando os times são talentosos e organizados (...) só que era tudo besteira, ou se não besteira, vá lá, mitologia, linguagem. Como um radialista chamando de proeza um lance banal: linguagem pura. O sobrenatural era um véu que o pessoal aplicava sobre a realidade, não a própria realidade” (p. 166)

Não haveria aí a possibilidade de construir uma ponte entre a partida de futebol e a realidade brasileira, e o radialista com o intérprete? Ou não será o próprio Murilo Filho filhote desgarrado de Sérgio Buarque de Hollanda e outros colegas de trabalho? Na verve típica da literatura moderna, de valorizar a ambiguidade, e de escapar da pecha de romance-tese, em que todo o drama e personagens narrados viram roupagens pouco-convincentes para disfarçar uma Ideia Principal, a própria noção de ser possível “resolver” o país é ridicularizada pelo protagonista, o Murilo Neto:

“Acho que no fundo Murilo não se conforma de morrer sem ter entendido alguma coisa profunda sobre o Brasil, uma maluquice assim (...) Não entende ou não quer entender que já era, estilhaçou tudo, fodeu tudo. Não tem mais Brasil, se é que um dia teve. Não tem um país só.” (146)

Os contrastes entre os dois personagens são totais, não apenas nas opiniões, no interesse pelo futebol ou na disposição anímica em geral (enérgica no caso do pai, neurótica no caso do filho): se o pai valoriza a questão auditiva dos rádios, a maioria das referências do filho (reiteradas ad nauseam pela narrativa, parecendo quase impossível que algum minuto da cabeça do personagem não passe por algum objeto protegido por copyright) são de natureza audiovisual, do qual não há tanto refúgio de imaginação; se o pai se pretende escritor até o fim e ocasionalmente colore seu discurso com citações literárias, o filho é revisor de livro de auto-ajuda traduzido com control+v do Google. Até mesmo o comportamento sexualmente predatório dos dois se dá de maneira distinta, pautado pelo orgulho no caso do pai, em coleções públicas que parecem não ter fim, e vergonha, de prováveis apagamentos de números da agenda do celular, no caso do filho.

O próprio romance desenha essa substituição de visões de mundo, ou até mesmo de mundos, no capítulo em que discute a diferença entre o revival e a história, a Cultura De Verdade e o Pop, que seria o ponto fraco estético do livro (pelo excesso do modo explicativo) se as ideias ali fossem batidas ou minimamente conclusivas. A provocação não é pequena. Existe a constatação de que de fato foi destruída a visão histórica e de Grandes Interpretações da realidade, por ser insustentável qualquer construção retórica diante de tanta realidade circundante, o inchaço urbano em que a violência monstruosa é normalizada, a hipocrisias expostas em menos de vinte e quatro horas e que mesmo assim perduram, o fato de ser cada vez mais patente a impossibilidade de se sonhar com um mundo que não seja apenas ligeiramente melhor (e que mesmo assim melhore esse muito pouco a muito custo); por outro lado, o que veio para substituir esse otimismo infundado ou insustentável dos Projetos Nacionais tampouco satisfaz em qualquer critério que não o de distração imediatista. Decide-se que uma postura é insatisfatória utilizando certos critérios (a ineficácia, ou pelo menos a ineficiência) e a nova postura está menos apta ainda a lidar com o mundo se mantivermos os critérios que utilizamos ao descartarmos a anterior. Descarta-se a postura e, juntamente, os critérios que operaram o descarte. E o que resta?

O livro narra essa sucessão de posturas em ambiguidade esgarçada: é inegável o tanto de farsa que há na figura de Murilo Filho, capaz de opiniões como “poucos proprietários que se distinguiam em partes iguais pela ganância e pela indiferença às condições de vida das multidões” sendo ao mesmo tempo sendo colaboracionista da ditadura (no mínimo pela edição estatal de livros seus), e que, por tanto acúmulo histórico brasileiro de textos e discussões acaloradas e às vezes até sofisticadas, pouco parece ter sido feito para melhorar de fato a situação do país, qual seja o lado que se queira ver uma sociedade ideal (mais “livre” ou mais “igualitária”). Parece que tudo é mesmo uma merda.

No entanto, vemos junto com a reconstituição de diferentes épocas históricas do Brasil (dos anos 50 do interior do país, aos movimentados anos 60 e 70 do Rio de Janeiro, aos desencantos da redemocratização e os aparentes escombros de civilização atuais) a reconstituição também dos estilos literários que carregaram diversas épocas do país: temos crônicas esportivas, ironias machadianas entre outras mais brutas, brutalismos de Rubem Fonseca, folclores pitorescos à la Jorge Amado, algum pouco de regionalismo pacato de narrativa interiorana, letras de sucessos radiofônicos anos 80 dos primórdios do Pop brasileiro, até mesmo pedaço de soneto Belle Epocque e uma bizarra mulher que fala que nem o sobrinho do Iauaretê. Há um carinho inegável subjacente na riqueza de formas brasileiras no livro, em contraste imenso com o conteúdo que destila denúncias de violência, estupidez e preconceito por todos os cantos, como que em resposta esteticamente formulada à pergunta “mas por que afinal você ainda atura morar aqui”: “ah, não sei, um jeito diferente nas pessoas, não sei explicar direto”.

São várias as outras sacadas geniais do livro: o fato de uma narrativa ter como Figura Paterna Opressora um personagem de sobrenome Filho (e o filho oprimido na verdade ser Neto), com pouquíssimas referências a quem seria o patriarca original, mostrando que a imensidão da sombra paterna é algo superável, apenas não superado por Neto, tornando apenas mais terrível seu tormento. O fato da trama inteira de vingança se ordenar perfeitamente pelas lacunas sentimentais do filho, que compra os croquetes na previsibilidade de quem busca a estabilidade de uma rotina (em sua mente dando a grandiosa descrição de “ritual”), e de suas idas à casa do pai continuarem apesar de não dar qualquer aparência de resolução emocional vindoura, como o ressentido que revisita suas mágoas apenas para avivá-las, feito viciado que sabe que faz errado, só para um revival. O delineamento detalhado de um machismo venenoso disseminado como normalidade, acessível e operável tanto por Fodões quanto por Fodidos.

Até mesmo o que eu tinha achado que era defeito, certo excesso de foreshadowing do livro, tornando o suposto final surpresa um pouco previsível, na releitura se mostra fascinante: praticamente a cada quarenta páginas se vê um aviso de que as coisas não são como o protagonista as entende, o médico falando que Neto não se parece com o pai, sendo anunciado que o livro favorito é Dom Casmurro... a coisa primeiro parece quase livro de detetive que subestima a inteligência do leitor. Só que na segunda viagem percebe-se que os avisos não são a cada quarenta páginas, e sim a cada vinte, e não estão ali a serviço da perspicácia do leitor, e sim para evidenciar de novo e de novo a cegueira monstruosa de Neto, incapaz de enxergar o que é colocado de novo e de novo diante de si. O contraste que se impõe fortemente é a de seu pai biológico, que tinha o dom de ver um segundo adiante, e seu filho sem talento para o futebol e, mais para frente, para a vida como um todo. O que era tão promissor se torna frustrado para além das expectativas anteriormente delineadas, quebrado de uma forma antes inimaginável.

Foi esse, principalmente, o segredo de Rodrigues para conseguir abordar a questão nacional pelo futebol, não só fugindo como destruindo a armadilha do deslumbre; tratar o que É na sombra permanente e deprimente de O Que Poderia Ter Sido, que qualquer coisa de valor e relevância que apareça nesse país precisa vencer uma luta inglória para continuar existindo ou não ser cooptada e desvirtuada. Que a adolescência moral e intelectual perpétua do Brasil explicita a perda da inocência da infância e a frustração repetida de estar sempre aquém de um desenvolvimento e amadurecimento que nunca chega, e o abandono das expectativas de um país significativamente melhor não produz o apagamento das frustrações. Não vamos deixar de amargurar todas a canalhices de nosso mundo se aceitarmos elas como naturais; elas só vão deixar de melhorar na lentidão enlouquecedora como vem melhorando.

Pois elas podem começar a piorar. Como Neto percebe ao final de sua história, e como pudemos presenciar entre o setembro de 2013 da publicação do livro e esse 2015 que parece que não acaba, as coisas sempre podem piorar.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Ódio automatizado ao contemporâneo

A produção de literatura deve ser uma das poucas atividades humanas que tem como primeiro público pessoas predispostas a odiá-la.
Tenho o assunto desse texto ruminando na minha cabeça há um tempo, e em um rascunho anterior eu suscitava como exemplo praticamente todas as caixas de comentários do blog Todoprosa, do Sérgio Rodrigues. Não se trata da desgraça comum das caixas de comentários da internet, em que frequentemente se denuncia esse governo que está arquitetando a vinda de alienígenas pedófilos para roubar as armas do cidadão comum para que ele fique indefeso contra as invectivas da ditadura do politicamente correto, e sim de uma desgraça light, uma desgraça semi-refinada, uma desgraça que suspira apaixonadamente ao ler poesia. A desgraça bem típica do leitor de fim de semana, que lê três vezes mais do que o brasileiro comum (isso é, quase nada) e ainda assim se veste sem constrangimento com roupa de entendedor profundo e crítico incisivo, quando na verdade a satisfação de ler sua opinião tende a ser próxima da de acordar com dor de dente.
Nunca me esquecerei de um post em que o Sérgio Rodrigues elogia o início do “Um Conto Nefando” do seu xará Sant’Anna, em que uma mãe num clima de abuso perdoado tem relações sexuais com seu filho, referido pelo texto como "poeta maldito". O comentário tecia uma crítica do tipo que a caracterização do conto era meio clichê. O texto chama um personagem de Poeta Maldito e o indivíduo acredita que é falta de criatividade do escritor, e não qualquer vontade de trabalhar os arquétipos de maneira mais direta e transparente.
Não se trata de tirar o direito das pessoas de não gostarem de textos literários, ou até mesmo de ocasionalmente estarem erradas ou de escreverem besteira, e sim de discutir a prontidão e o prazer que muitos leitores sentem na hora de desqualificar qualquer produção contemporânea, ufanando-se sempre dos tempos gloriosos dos grandes escritores que nunca voltarão.
No entanto, nas primeiras versões desse texto tudo estava muito abstrato, parecendo aquelas soluções brilhantes para problemas inventados, até que essa semana uma santa alma me fez o favor de permitir que esse texto seja ilustrado com uma síntese perfeita:



Há várias questões em jogo, aqui. A primeira, mais simples, é a mera seleção do tempo: temos de cada época antiga da literatura apenas os melhores escritores e os melhores textos; os medianos, medíocres e ruins tendem a ficar para os especialistas que buscam reconstruir um período literário em suas dissertações (been there done that no meu Mestrado, nunca mais, a vida é muito curta). A literatura nos 30 no Brasil pode parecer superior ao lermos Graciliano após ter aturado um livro fraco publicado no ano passado, mas é justamente por lermos Graciliano e não as dezenas e centenas de livros do período que foram justamente esquecidos.
Até prêmios literários, que fazem um pouco desse serviço no contemporâneo, não nos ajudam certeiramente; todos conhecem a velha história do Sagarana ter ficado em segundo lugar no concurso em que foi inscrito, atrás de um livro que hoje ninguém lê, o próprio Graciliano figurando na comissão julgadora. Todos os jurados comentam a loucura que é ler uma fatia significativa do que é lançado pelas editoras no período de um ano; e nem dá pra cobrar dessa maratona massificada de um-livro-por-dia o discernimento perfeito em uma arte que frequentemente valoriza a sutileza, o sub-entendido, ou até mesmo o escondido. A literatura sempre foi e sempre será um jogo demorado.
Já acreditei que essa era o único ou o principal fator operante, mas mais recentemente vejo que não é só isso. Os dois casos citados aqui são de Sérgio Sant’Anna, um dos mais premiados escritores da atualidade e, a meu ver, a única obra de formação inicial nos anos 70 que conseguiu sobreviver a bagunça de categorias significativas que foi a redemocratização brasileira (quem quiser saber mais sobre isso, leia minha dissertação, é grátis), criador de uma das obras mais sólidas de toda a literatura brasileira, e o romance do Sérgio Rodrigues, que a senhora lá achou “chato pra caramba” e que conta com trechos como esses:

“Entre o fim da infância e o auge da adolescência, meio orgulhoso e meio horrorizado, Neto aprendeu pela imprensa a soletrar o rol das amantes de seu pai, uma por uma: princesas europeias libertinas, starlets americanas drogaditas, socialites de pescoço longo de Modigliani, filhinhas perdidas de general e brigadeiro em idade ilegal dadas a vomitar às seis da manhã sob a mesa do Hippopotamus, escritoras intoxicadas de Anaïs Nin e Shere Hite, atrizes do Zé Celso imunes aos desconfortos da depilação, atrizes de pornochanchada e de Tchékhov, capas de Ele Ela e Status, aspirantes às capas de Ele Ela e Status, psicanalistas reichianas, cantoras bissexuais. Mesmo que metade daquilo fosse lenda, era evidente que nunca tinham faltado a Murilo Filho, o filho da puta, as graças de um grande elenco de habitantes fogosas daquele mundo pré-aids. Era quase perdoável que não tivesse tempo para ser pai.”
(listagem de fazer descer uma lágrima de orgulho no William Gass)

ou

“O Perna sempre passava do ponto na birita, ficava chato, mas o pessoal entendia. O cara tinha uma perna mecânica da qual não se podia falar, era tabu, o mesmo que perguntar hoje ao Roberto Carlos da perna dele: todo mundo sabia e ninguém comentava, mas aí é que está. Apesar disso, todos chamavam o Perna de Perna. Era o apelido dele desde a época do Tiro de Guerra, quando ele ainda tinha as duas pernas e começaram uma brincadeira no vestiário dizendo que ele era aquinhoado de uma terceira entre as duas de um ser humano normal. No início o chamavam de Terceira Perna, mas Terceira Perna era um apelido inviável, comprido demais, ficou Perna. (...) O Perna gostou daquilo de dizerem que era bem-dotado. As mulheres perguntavam por que Perna e os homens se entreolhavam, desconversando. Algumas donas era inevitável que botassem malícia, imaginassem o resto, mas o Perna achava isso melhor ainda, tudo propaganda. Quando anos depois perdeu a perna na serralheria do pai, era tarde para voltarem a chamá-lo de Reginaldo, e começou a comédia: o nome que o protegia era o mesmo que o atacava. A cidade entrou em curto-circuito, acabaram por prevalecer tanto o apelido quanto o tabu. Todo mundo chamava o Perna de Perna, mas ninguém falava do aleijão do Perna na frente dele, coisa horrível, mesmo porque diziam que tinha afetado de algum modo sinistro a tal ex-terceira perna, que agora seria no máximo a segunda mas talvez nem isso, ai, meu Deus.”

Cheio de sexo, violência, ressentimento, denúncia de racismo e machismo e um entendimento histórico sutil a respeito da realidade brasileira, é até possível imaginar que alguém talvez questione como se compõe esse entendimento histórico e essas denúncias; falar que o livro é chato, no entanto, é apenas bizarro. Até quem odeia futebol tem grande chance de gostar muito do livro; vê-se um cuidado apurado com cada página e um interesse vívido de manter o interesse do leitor até mesmo de attention-span curtinho, internético.
Já postei anteriormente sobre a diferença de ler um livro contemporâneo e ler um clássico. Ítalo Calvino famosamente diz com sorrisinho de canto de boca que o clássico é o livro que sempre se diz estar relendo: há um pressuposto de dívida sendo saldada quando um leitor vai pela primeira vez às páginas de um clássico, a frase “estou lendo X pela primeira vez” carregando quase sempre o advérbio implícito de “finalmente”. Imagina-se também uma doação altruísta de seu tempo livre para manter acesa a morredoura chama da civilização, tão ameaçada hoje em dia por reality shows e mídias sociais (sem a possibilidade da pessoa em suas leituras alcançar a percepção de que a chama da civilização sempre esteve sob ameaça, ou que o que se chama de civilização às vezes é apenas o incêndio que se põe naquilo que está no caminho das vontades dos poderosos).
Com o contemporâneo, por sua vez, a doação não é feita ao espírito do ocidente, e sim à pessoa física do autor, que bem que poderia depois mandar um email de agradecimento pela magnanimidade do leitor ao escolher seu texto em vez do de um consagrado. Nessas leituras de saldar dívidas, qualquer defeito em um clássico é rapidamente relevado e posto de lado: se Dickens é prolixo, isso se dá pela conjuntura comercial da produção literária de sua época, de pagarem por palavra; se Robinson Crusoé é terrivelmente imperialista, é apenas a normalidade do pensamento vigente do período; se Joyce é obscuro é por ser profundo demais (e quase nunca metido), cabendo ao leitor apenas correr atrás.
Qualquer defeito em um contemporâneo é motivo para amargurar profundamente não estar gastando seu parco tempo de leitura (e é verdade que uma vida inteira para leitura parece muito pouco) com algo consagrado. O poder simbólico na relação de leitura dessa pessoa se estrutura de forma muito simples, o mais poderoso e o menos poderoso: o autor canônico mais poderoso que o leitor contemporâneo, o leitor contemporâneo mais poderoso que o autor contemporâneo. Nunca se busca (talvez sequer se imagina como possível) uma relação mais de equanimidade, de diálogo.
Se fosse só uma questão de como os defeitos são absorvidos pelo leitor, o problema não seria tão espinhoso. A triste verdade é que não existe unanimidade quanto ao que constitui defeito em uma obra literária, e o leitor que já abre o livro de nariz torcido, predisposto a sentir o cheiro de merda antes mesmo de chegar nas primeiras palavras do livro, vai tomar por defeito tudo que pode ser tomado de tal forma. Para piorar, com o tempo a gente percebe que quase tudo nessa vida pode ser tomado como porcaria se assim quisermos: a um autor de livro curto falta fôlego, a um autor de livro longo falta auto-crítica e um editor competente que tenha sugerido cortes, a um autor de narrativa convencional falta criatividade/ousadia/originalidade e a um modernoso sobra pretensão. Claro que é possível que existam livros magros demais, longos demais, convencionais demais, ou com um excesso de invencionices ilegítimas; existe, no entanto, uma rapidez no julgamento negativo, ou mais que isso, uma vontade de exercer o julgamento negativo (que, claro, deusmelivre, nunca poderia ser exercido em um livro consagrado; se você demorou para terminar de ler aquele clássico é sempre culpa sua).
O protagonista de um comentário elogioso é o objeto elogiado, já o protagonista do comentário crítico é o comentarista. Elogiar o amplamente elogiado é uma pequena forma de fazer com que o protagonista do comentário elogioso seja em parte do comentarista. Nossa, olha fulano, ele lê Tolstoi. Já em falar mal do consagrado há o risco imenso é de ser o protagonista idiota ou pouco sagaz, por mais que possivelmente se fale uma verdade, como por exemplo que Dostoievski de fato escrevia os romances de forma desorganizada; é possível valorar a tal desorganização, mas bem mais passível de vermos a característica sendo valorada no Dostoievski do que em algum contemporâneo similarmente verborrágico.
(Há também, como em tudo, o risco contrário, do fulano querer um atalho para ser considerado iconoclasta e original jogando pedra no cânone por critérios apressados. O equilíbrio tende a ser o melhor caminho)
Não há de se falar de uma luta para que esses jogos de ego sejam superados; se isso realmente acontecer algum dia na humanidade, uma literatura mais livre de opiniões estúpidas constará entre os benefícios menores dessa revolução inacreditável. Cabe apenas expor os exageros que às vezes são norma, e tentar construir uma consciência de que esse é um risco constante. Não é apenas o louco da caixa de comentários que coloca as coisas dessa forma, e às vezes não é tão transparentemente estúpido: às vezes traz frases mais ou menos bem construídas, COM MENOS MAIÚSCULAS, e que até conseguem enganar mais do que os cegos.
Olha como é fácil ser superior a todos os escritores brasileiros contemporâneos de uma só vez, dá até pra reciclar texto de vários anos atrás (e de novo, daqui a pouco, quando o Brasil (ó mágoa) não ganhar de novo o Nobel). O problema é muito simples: esses escritores brasileiros que só falam de seus mundinhos... como se Coetzee não falasse da África do sul e de ser um homem branco, Alice Munro de ser mulher no Canada, Herta Muller do autoritarismo que ela mesmo viveu, Vargas Llosa de ter de aturar ser latino-americano, etc etc.

Há sempre o ressentimento do holofote, por menor que seja o holofote, um luzinha em círculo de poucos centímetros de raio (um sucesso editorial no Brasil não precisa chegar a cinco dígitos de vendagem). Qualquer um que sobe no palco para qualquer apresentação precisa sempre responder a pergunta “por que você é o que sobe no palco”, quase sempre sendo omitida o resto da pergunta “... e não eu?”. Qualquer pianista de carreira ascendente rapidamente fica sabendo de comentários atravessados de outros pianistas não tão prósperos, ou destinados (assim se dizem todos os dias no espelho) apenas à consagração póstuma. Creio que esse problema na literatura tem amplitude maior, uma vez que todo leitor é alfabetizado, todo leitor tem seu histórico de leitura, todo leitor reconhece uma história boa de se contar ou ouvir: todo leitor tem em mãos os recursos para se considerar um pianista, restando a ele reclamar de quem está sob ou quem controla os holofotes, até mesmo se ele não tiver composto porra nenhuma.
A paz do escritor genial que nada escreve reside quase exclusivamente no cânone e na legitimidade automática que tem o passado: eu seria um grande escritor, com certeza, mas o tempo de grandes obras literárias passou. As pessoas hoje só querem saber de Big Brother ou facebook, putz, a chama da civilização nunca esteve tão fraca. Não é mais possível ser grande, por isso nem vale a pena arriscar, desavisados são os que vão atrás, ou nem dá pra dizer que vão atrás porque sempre estão e estarão aquém, eu que não faço nada que sou esperto, bem melhor do que esses que ficam tomando o tempo dos outros e se achando por aí, blábláblá.
Não é um mal de agora, claro, achar que o tempo das grandes obras sempre passou: até em Homero existe sub-entendido um período de grandeza humana inteiramente inacessível à imundície contemporânea. Aquiles é mais forte que qualquer um hoje (hoje ou ouvindo algum aedo) poderia ser, Ulisses mais arguto, Helena mais bela e Menelau mais corno (talvez esse último seja verdade, até mesmo antes de existir a escrita já se discutia pelos séculos os chifres do coitado). Igualmente, Drummond é mais sensível, Vinícius mais apaixonado e apaixonante, Cabral mais criterioso, Oswald mais louco (precursor tupiniquim do nude metido à besta, entre outras novidades).
Esse sentimento se reforça no fato de o passado vir a nós bem mais embalado para um entendimento razoável do que o presente, essa bagunça contínua e convulsiva. Em um mundo mais organizado, é realmente mais fácil ver o que constitui o fraco e o genial. Ou talvez seja a influência da infância e dos primeiros anos de leitura na vida da pessoa que não amadurecem depois para algo que caiba ainda a descoberta e a satisfação fora do mundo da nostalgia; é verdade que livros nascem de livros tanto quanto (ou até mais do que) de reflexão e experiências de vida, e os que chegam primeiro produzem sombra grande sobre os que acessamos depois, mas é um leitor acomodado o que parte de forma exclusiva e acrítica da sua experiência pessoal (e da consagração já pré-pronta) para valorar em voz alta, oficialmente, a produção atual. É o crítico gastronômico que em toda resenha diz que tudo é ruim porque nada é melhor do que a comida da mãe: nada de errado de pensar isso (apenas triste depois da mãe morrer), errado é o cara partir daí pra virar ou se fazer de crítico gastronômico.

Há, ainda, aqui, um espacinho também para o bom e velho complexo de inferioridade brasileiro. Se podemos ser bondosos e magnânimos com a capacidade humana de criar obras grandiosas, ter fé no futuro da chama da civilização, querendo nos manter na posição de críticos ferrenhos de tudo que está aí sem ter de contribuir de fato qualquer coisa para a discussão, podemos nos agarrar na velha lamúria de existirmos sob condições tão medíocres. Daí é possível permitir a entrada de um Foster Wallace, Philip Roth, Saramago ou o que valha, tendo sonhos de como seria possível talvez assinar uma obra-prima se você não tivesse de enfrentar filas de cartório, procurar algum seguro-saúde que caiba no seu orçamento ou lidar com vizinhos chatos e mal-educados que certamente não existem acima da linha do Equador.
(a história do ó-nunca-ganhamos-um-Oscar e ó-nunca-ganhamos-um-nobel dá outro post)


É verdade que Tolstoi realmente é muito foda, e que está no direito da pessoa optar por gastar seu tempo principalmente ou exclusivamente com os clássicos (talvez uma decisão melhor se o interesse for de ler apenas livros bons); a dissonância se dá na convivência desses dois mundos na verdade quase-distintos, o contemporâneo e o consagrado, e nada parece impedir que apareçam caga-regras cheios de razão e discernimento sem ter feito qualquer esforço para alcançar na posição de críticos de altíssima capacidade analítica.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Antrim e Gass traduzidos

"In 1994, my grandparents, too old to maintain their house, moved into a nearby assisted-living community, where they occupied a small apartment with a tiny yard planted with flowers. Several times I visited them there - an insomniac man in his mid-thirties, walking the long corridors of a rural home for the aged. I remember from those trips that the men and women of the place, who seemed ancient to me when I first arrived, began, as the days passed, to appear younger and more beautiful. The women in particular, in their laughter and their smiles, the way they might quickly glance away when aware of being looked at, showed evidence of themselves in their youth. I felt charmed by the ladies in my grandparents' circle, and learned to understand that a woman near the end of her life has not given up her powers of seduction. While topping after lunch to say hello, I might look into the eyes of a great-grandmother from Richmond or Atlanta and see, or imagine seeing, the girl who did not yet realize that everything and everyone ahead of her - the husband who would pass away, her children, and their children, since moved to distant cities - could come and go so quickly"

"Em 1994, meus avós, velhos demais para manter a casa, se mudaram para uma comunidade para idosos ali perto, onde ocupavam um apartamento pequeno com um jardinzinho plantado de flores. Várias vezes eu os visitei ali - um homem insone com trinta e tantos anos, andando pelos corredores compridos de um lar rural para os envelhecidos. Eu me lembro daquelas viagens que os homens e mulheres do lugar, que pareciam anciões quando primeiro cheguei, começaram, com o passar dos dias, a aparentar mais jovens e mais belos. As mulheres em particular, com suas risadas e sorrisos, e no jeito que elas poderiam rapidamente desviar os olhos  quando percebiam que eram alvo do olhar de outra pessoa, davam indícios de si próprias na juventude. Eu me sentia encantado pelas damas do círculo de meus avós, e aprendi a entender que uma mulher perto do fim de sua vida não desistiu de seus poderes de sedução. Enquanto fazia uma pausa depois do almoço para dar um alô, eu poderia olhar nos olhos de uma bisavó de Richmond ou Atlanta e ver, ou imaginar ver, a garota que ainda não se deu conta que tudo e todos diante dela - o marido que faleceria, seus filhos, e os filhos dos filhos, desde então mudados para cidades distantes – poderiam chegar e partir tão rapidamente"

"Our parents’ lives before we are born take place in a kind of mythic realm, a realm of the imagination, and our mothers’ and fathers’ Power to shape and interpret our lives, to tell us whe we are, even in our adulthood, requires our understanding that, because they inhabited mythic time, and because their existence has brought about our own, they remain for us immortal and all-seeing, just as they were when we were too young to survive without them."

"A vida de nossos pais antes de nascermos acontece em uma espécie de domínio mítico, um domínio da imaginação, e o poder de nossas mães e pais de moldar e interpretar nossas vidas, de nos dizer quem nós somos, até mesmo na vida adulta, exige nosso entendimento que, por terem habitado o tempo mítico, e porque a existência deles trouxe a nossa, eles permanecem para nós imortais e oniscientes, como foram quando éramos jovens demais para sobreviver sem eles"

The Afterlife, do Donald Antrim

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Do conto "Soliloquy for a chair", narrado por uma cadeira. Um dos melhores textos do novo livro do William H. Gass, Eyes:
"The way we are misused is no worse than any other. I am not like a lot of my companions, bitter about people, or despairing of my own nature, the way glass feels because it can be seen through - ha ha - nor am I surprised to have learned from knives that they have conserved their animus like juice in jam jars, waiting for dullness or - contrarily - the best time to snap, or how to hurry a finger toward the cut that awaits it. In the opinion of the barber guys, the way utensils are misused is no worse than any other treatment, however widespread, that the human species has inflicted on Mother Nature: hills are burrowed or leveled, lakes pumped dry, seas emptied of life, trees cut, forests burnt. It is no matter with men what damage they do, or their paved streets and ubiquitous cellars accomplish. They murder the very ground they walk on - it's all right - so why should we few chairs complain about a rusty pinion, a small tear, some slight impulsive knockabout?"

“O jeito que somos mal utilizadas não é pior do que qualquer outro. Não sou como muitos de minhas companheiras, amargurada com as pessoas, ou desesperada com minha própria natureza, o jeito que o vidro se sente por ser tão transparente - ha ha - nem fico surpreendida de ter aprendida com as facas que elas conservam seu animus como o suco em jarros de geleia, aguardando a cegueira ou - contrariamente - a melhor hora para quebrar, ou como apressar um dedo na direção do corte que lhe aguarda. Na opinião dos barbeiros, o jeito que os utensílios são mal utilizados não é nada pior que qualquer outro tratamento, por mais difundido, que a espécie humana infligiu na Mãe Natureza: morros esburacados ou achatados, lagos bombeados à secura, mares esvaziados de vida, árvores cortadas, florestas queimadas. Não é uma questão aos homens os danos que eles provocam, ou o que cumprem suas ruas pavimentadas e sótãos ubíquos. Eles assassinam o próprio chão em que andam - está tudo bem - então por que algumas cadeiras como nós deveriam reclamar a respeito de uma pecinha enferrujada, um pequeno rasgo, alguma ligeira trombada impulsiva?”

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Tradução de um textinho de Peter Altenberg

Tradução da tradução (Peter Wortsman, o tradutor americano), mas mesmo assim aí vai. Da coletânea Telegrams of the Soul:

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No Volksgarten

“Eu queria um balão azul! Um balão azul é o que eu queria!
“Aqui um balão azul para você, Rosamunde!”
Foi explicado a ela então que havia um gás por dentro que era mais leve que o ar da atmosfera, e por consequência disso etc etc
“Eu queria soltar ele – “ ela disse, bem assim.
“Você não preferiria dar o balão àquela garotinha pobre ali?”
“Não, eu quero soltar ele - !”
Ela solta o balão, e fica olhando ele, até ele desaparecer no céu azul.
“Você não está arrependida agora que você não deu o balão à garotinha pobre?”
“Sim, eu deveria ter dado o balão à garotinha pobre.”
“Aqui outro balão, dê esse para ela!”
“Não, eu quero soltar esse também no céu azul!” –
Ela assim o faz.
Ela recebe um terceiro balão azul.
Ela vai até a garotinha pobre por conta própria, dá o balão a ela, dizendo “Solte você, esse!”
“Não,” diz a garotinha pobre, olhando fascinada para o balão.
Em seu quarto ele voou até o teto, ficou ali por três dias, escureceu, enrugou-se e caiu morto, um pequeno saco preto.
E então a garotinha pobre pensou “Eu deveria ter soltado ele lá fora no parque, para ver ele subir no céu azul, eu teria acompanhado a subida, só olhando -!”
Enquanto isso, a garotinha rica consegue outros dez balões, e uma vez o Tio Karl até compra para ela todos os trinta balões de uma vez. Vinte deles ela deixa voar para o céu e dá dez às crianças pobres. A partir daí ela absolutamente não tinha mais nenhum interesse em balões
“Esses balões idiotas -,” ela disse
A respeito disso Tia Ida observou que ela era bastante avançada para sua idade!
A garotinha pobre sonhou: “Eu deveria ter soltado o balão no céu azul, eu teria ficado olhando e olhando –!”


sábado, 10 de outubro de 2015

Saudosos tempos em que tínhamos escritores de verdade.

Raciocínio que eu só tive semana passada, depois de muito tempo com a faca e o queijo na mão: ao estudar antiguidade, os especialistas repetem várias vezes que o que se narra em Homero, até mesmo na época em que os poemas existiam apenas oralmente, é o Tempo de Ouro, em que os heróis eram bem mais do que os contemporâneos jamais conseguiriam ser: mais fortes, poderosos, ágeis, sagazes e tudo mais, que era até possível cultivar virtudes e tentar tomá-los como exemplos de vida e agir, mas que a excelência deles pertence a outra categoria, inalcançável... agora, como que eu nunca tinha feito até poucos dias atrás a conexão dessa ideia ou estrutura de pensamento com o endeusamento agigantado do cânone artístico (que quase sempre desenha panoramas homogeneamente catastróficos para o contemporâneo, que seria tudo muito ruim, tudo vendido, que não tem ninguém que seja sério) é um mistério.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Relendo: Crônica da Casa Assassinada

Acreditando que cheguei a um estágio minimamente aceitável no que diz respeito a amplitude da minha bagagem de leitura, sabendo mais ou menos delinear afinal o que é do meu gosto e o que não é (estranhamente para mim não foi algo tão espontâneo assim, tão fácil de discernir), e tendo finalmente terminado de escrever o meu romance, decidi por revisitar alguns dos livros que mais me impressionaram nessa minha vida de leituras. No afã de tentar não incorrer no erro de muitos escritores de início de carreira em ficar concentrado na obra de um ou outro autor obsessivamente e daí acabar produzindo cópias pouco convincentes, acabei diversificando minhas leituras de forma talvez exagerada: foram poucos autores os que li a obra completa, e poucos os livros que passaram por releitura. Pouco mais de uma dúzia, talvez; talvez teria sido mais produtivo conhecer menos autores para conhecer outros mais afundo. Daí a ideia de começar uma nova prática de leitura: dentre os três ou quatro livros que ficam se alternando entre a cabeceira da minha cama e o banco de trás do meu carro, sempre um que eu já tenha lido antes e esteja revisitando. Ver o que eu encontro de diferente, de novo, de detalhe despercebido.

(Claro que não tenho cumprido essa determinação à risca, mas o que vale é a intenção)

Comecei pelo Crônica da Casa Assassinada. Acabou por ser ao mesmo tempo frustrante e fascinante; se a ideia do projeto era ver coisas novas, ter uma percepção quem sabe diferente do livro, aquela coisa clássica de que “ah, minha leitura mudou, mas o texto continua o mesmo: na verdade quem mudou fui eu”. Crônica é exatamente como eu lembrava, incrível, transbordante, daqueles livros em que dá pra imaginar montando uma casinha em algum canto dentro de suas páginas e morar dentro dele por vários meses (ou invadindo algum dos quartos abandonados do edifício do livro, se preferirem a imagem do prédio em vez da do terreno). O que me surpreendeu primeiro foi a consistência da perfeição do livro: já é sacada velha a conversa de que o teste verdadeiro da qualidade de uma obra é abri-la na página noventa e nove e não na página inicial, que autores sempre tendem a dar um gás a mais no iniciozinho (como é compreensível) e tendem a ir perdendo a força quando o começo fica excessivamente bom.

(aliás, deixa eu ir lá na página noventa e nove do manuscrito do meu livro pra ver se tá um lixo)

Enfim, aqui o primeiro parágrafo e um pouquinho do segundo:
“1. Diário de André (conclusão) - (...meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará meus restos mortais, terei de refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo – “era assim que ela beijava” – naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos – todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma – o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas...
Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis. Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos [...]”

Crônica nunca perde a força, mesmo partindo de um dos melhores inícios de livro que eu já vi. É inclusive uma das críticas que a galera da verossimilhança estrita mais faz ao livro, de que ele é excessivamente consistente, de que todo mundo fala no mesmo estilo incrível, do garoto de dezesseis anos que usa adjetivos como “insofismável” à empregada da casa (que na verdade um detalhe depois revela, e torço que eu não esteja lembrando errado aqui, que ela na verdade é britânica e que veio dar aulas de inglês a Timóteo, inclusive com literatura inglesa; o molde-estereótipo de criada então não é cabível a Betty) que escreve coisas como ( ao descrever a beleza terrível de Nina):

“ainda hoje, passado tanto tempo, não creio que tenha acontecido outra coisa que me impressionasse mais do que esse primeiro encontro. Não havia apenas graça, sutileza, generosidade em sua aparição: havia majestade. Não havia apenas beleza, mas toda uma atmosfera concentrada e violenta de sedução. Ela surgia como se não permitisse a existência do mundo senão sob a aura do seu fascínio – não era uma força de encanto, mas de magia. Mais tarde, à medida que se degradou, fui acompanhando em seu rosto os traços do desastre, e posso dizer que nunca houve vulgaridade nem rebaixamento na nobreza de seus traços. Houve uma metamorfose, uma substituição talvez, mas o que era essencial ficou e, morta, sob seu triste lençol de renegada, ainda pude descobrir o esplendor que vi naquele dia, flutuando, insone e sem guarida, como a luz da lua sobre os restos de um naufrágio”.

(puta que o pariu, hein?)

O que torna o feito particularmente espantoso é que o romance inteiro finca com os dois pés sua existência na estética do exagero, do desabrido, do vou-cortar-os-pulsos-pra-escrever-poesia-com-meu-sangue. Eu tenho realmente uma queda natural por esse tipo de expressão (Lobo Antunes, Foster Wallace, William Gass, parte grande do Sérgio Sant’Anna, e, paradoxalmente misturado com estoicismo e dureza, Cormac McCarthy) e minha escrita acaba caindo para esse lado também com alguma frequência. O risco envolvido é grande. Se um autor opta por uma estética do menos, da contenção, o erro que ele comete faz com que a obra caia no nada, surta efeito nenhum. Uns anos atrás fui ler o Raymond Carver, empolgado para conhecer a obra que dizem que praticamente ditou como se escrevia conto nos anos oitenta nos Estados Unidos, e achei o livro apenas legal. “Legal” não é uma marca acessível para a estética do desabrido: não tem quem ache o Foster Wallace ou o Lobo Antunes ou o William Gass “bons”: ou você acha incrível ou acha um lixo. Não existe o dar-de-ombros ao final da leitura desses livros; muito mais fácil é o abandono seguido de um tweet perguntando com inevitável superioridade o que é que vocês afinal enxergam nesse(s) cara(s), affe. (Porque, claro, nunca é uma questão de gosto pessoal, e sim lamentável falta de discernimento dos outros).

(Não colocando os autores dessa listinha como se fossem perfeitamente intercambiáveis: é óbvio que é possível gostar de Crônica da Casa Assassinada e achar William Gass uma bosta, e nem desqualificando quem não aprecie qualquer um desses; é quase sempre um desperdício de esforço e tempo criticar o gosto dos outros, pra qualquer lado que for)

Voltando ao delineamento da dicotomia: se a estética do contido corre o risco da ineficácia e do vazio, a estética do desabrido por sua vez corre um risco a meu ver bem mais terrível, o do ridículo. De o texto pedir aquele pacto de alma completo e eterno e explícito e o leitor rir, ou preferir ser menos cruel e apenas falar “calma, cara, senta aí e toma uma água”. Um texto da contenção pode passar por várias páginas calmas na montagem de um efeito posterior, enquanto o desabrido precisa a todo tempo se provar esteticamente como legítimo, o volume sempre posto ao máximo. Para além do risco do ridículo, o risco do cansaço espreita a cada virada de página. Claro, os livros dessa estética tendem a ser longos, como que naturalmente longos demais. Ideários de elegância e bom gosto não combinam com esses projetos artísticos: o ímpeto deve ser forte o suficiente para não cair no abismo do ruim, que parece ser mais fundo ou mais escorregadio do que o dos colegas que apostam no outro lado.

(O próprio Foster Wallace parece ter desejado passar do lado exagerado para o contido, o que de certa forma não é de todo arbitrário se pensarmos dentro do panorama filosófico composto em sua obra: se o Pale King era o livro-irmão e livro-oposto de Infinite Jest, o livro sobre o tédio se contrapondo ao livro sobre o entretenimento, até que existe um sentido interno que ele siga por outro percurso. Mesmo assim ao ler o que ele tinha escrito ainda fica a impressão estranha de ver uma águia decidir ir de uma montanha a outra andando em vez de usar as asas)

Talvez forte não seja o adjetivo correto, uma vez que não é falta de vontade ou empolgação que faz com que uma obra fracasse: o poeta que escreve com seu sangue não fracassa por não ter sangrado o bastante, não ter cortado fundo o suficiente. Afinal, é na juventude que a inexperiência diante do mundo e do existir funciona como um catalisador de todas as emoções e quase nunca é na juventude que um autor constrói suas melhores obras. É mais fácil que o fracasso seja na falta de técnica do rapaz na hora de lidar com a caneta tinteiro cheia de sangue ressecado por dentro, ou ver que o papel reage bem diferente do que quando se escreve com esferográfica. Não faltava sentimento ao jovem Lúcio Cardoso, faltava apenas técnica, que infelizmente não há outra forma de ela aparecer salvo pelo talento nato (raríssimo) ou pela insistência.

E talvez seja essa barreira gigantesca existente na estética do desabrido que tenha provocado tanto espanto aos leitores da obra anterior de Lúcio Cardoso o aparecimento de um livro como o Crônica: é unânime a afirmação de que lendo seus livros anteriores ninguém esperava por algo da excelência do Crônica. Até mesmo o próprio autor ecoa o sentimento, dizendo que era seu primeiro livro de verdade (para depois ter um derrame e não conseguir escrever mais nada).

Nas quinhentas páginas do livro, devem ter somado menos de meia dúzia as frases que fizeram com que eu torcesse o nariz e pensasse “menas, cara, menas”. Infelizmente uma logo na cena de André no enterro de Nina, mas enfim, era mesmo impossível manter o crescendo no trágico depois da invectiva dele contra Deus da última vez que ele tinha falado, após fazer sexo com Nina (o corpo quase desfeito por sua doença):

“De todos os lados, como um rio invisível que fosse crescendo, e esbatesse suas ondas de fúria contra os limites opostos que representávamos, o sentimento do fracasso se interpunha entre nós; passo a passo fui recuando, recuando, até o fundo da parede, como se deixasse espaço para que aquele mar fervesse, e subisse até nossos peitos impotentes, e nos atordoasse com seu cheiro de sal e de sacrifício. Rapidamente o mundo recompunha-se no seu mutismo. Pela primeira vez então, ergui o punho contra o céu: ah, que Deus, se existisse, levasse a melhor parte, e dela arrancasse seu sopro naquele minuto mesmo, e estabelecesse sua lei de opressão e tirania. Que até nos diluísse em matéria de nojo, e vivos, para maior divertimento seu, exibisse o atestado de nossa podridão e de nossa essência de lágrimas e de fezes – nada mais me importava. Literalmente anda mais e importava. Um vácuo fez-se em mim, tão duro como se fosse de pedra. Senti-me sorvendo o ar, caminhando, existindo, como se a matéria que me constituísse houvesse repentinamente se oxidado. E nunca soubera com tanta certeza como naquele instante que, enquanto existisse, proclamaria de pé que o gênero humano é desgraçado, e que a única coisa que se concede a ele, em qualquer terreno que seja, é a porta fechada. O resto, ai de nós, é quimera, é delírio, é fraqueza. Tudo o que eu representava, como uma ilha cercada pelas encapeladas ondas daquele mar de morte, admitia que a raça era desgraçada, condenada para todo o sempre a uma clamorosa e opressiva solidão. A ponte não existe, jamais existiu: quem nos responde é um Juiz de fala oposta à nossa. E sendo assim, desgraçada também a potência que nos inventou, pois inventou também ao mesmo tempo a ânsia inútil, o furor do escravo, e a perpétua vigília por trás desse cárcere de que só escapamos pelo esforço da demência, do mistério ou da confusão”

Mas a releitura serviu para uma coisa facilmente apontável, para além do prazer imenso de revisitar esse texto e todas as abstrações estéticas rapidamente rabiscadas aí em cima: reconstruir a impressão que eu tinha tido do final do livro, por sugestão da Ludimila. A confissão que Ana faz ao padre no final do livro, uma revelação meio absurda que meio que desfaz a questão do incesto no livro, pode muito bem ser invenção dela, em meio ao desespero e demência. Não descartando de todo a possibilidade de realmente ser o catolicismo do autor falando mais alto e ele tentando ter prova documental para expiar sua culpa de pecador contumaz diante de São Pedro quando morresse, mas a possibilidade de ser loucura  de uma Ana idosa e desdentada, querendo tomar para si o espaço de protagonista de uma ação extraordinária (suas últimas palavras transcritas no livro são, afinal, “Padre, e eu, não estou salva também, não pequei como os outros, não existi?”).

Não faz muito sentido na estética de mergulho profundo de subjetividade um segredo como esse ser real: quase equivale ao livro de detetive que revela que o assassino na verdade é o detetive-narrador. Desmonta imensamente a dramaticidade do livro (que mesmo assim resiste, claro, pelo poder do texto), uma nota dissonante justo em um romance que espanta pela sua consistência. Reconheço que talvez seja influência da história que ouvi recentemente que é quase dado por certo que foi demência que motivou Salieri a confessar seu suposto assassinato de Mozart, ou talvez seja que eu realmente prefira que não tenha essa conversa de final surpresa de troca de bebês.  Caso eu esteja errado, que o livro fique como atestado de que não existe final ruim o suficiente que arruíne um livro verdadeiramente extraordinário, se ele se mantiver grande até a beira do final. A não ser, claro, que seja algo ainda pior do que surpresa num esquema telenovela.

domingo, 19 de julho de 2015

Literatura feminina

O assunto do momento
(O momento sendo semana passada, mas enfim, me acostumei já a chegar atrasado nessas coisas)

Ah, como me encanta a literatura feminina, com sua sensibilidade, sua delicadeza, sua ternura, sua doçura...

Em homenagem às mulheres, que são tão importantes na vida de nós homens, um trechinho que sublinhei nas minhas leituras dos últimos meses:

“Ela olhou para trás e viu que o touro, sua cabeça baixa, corria em sua direção. Ela permaneceu perfeitamente parada, não por medo, mas congelada pela descrença. Ela olhou à risca negra e violenta avançando em sua direção como se ela não tivesse senso de distância, como se ela não pudesse decidir de imediato qual era sua intenção, e o touro enterrou sua cabeça em seu colo, feito um amante selvagem e atormentado, antes que sua expressão mudasse. Um de seus chifres afundou até perfurar seu coração e o outro se curvou ao redor de seu lado e a segurou em um agarro inquebrantável. Ela continuou a olhar direto para frente mas a cena inteira diante dela havia mudado – a linha de árvores era uma ferida escura em um mundo que não era nada além de céu – e ela tinha a aparência de uma pessoa cuja visão tinha sido subitamente restaurada mas que acha a luz insuportável.” 
(Flannery O'Connor)

 e

“Só depois de acusá-lo do crime de silêncio que Babel descobriu quantos silêncios existem. Quando ele ouvia música ele não escutava mais às notas, mas aos silêncios do meio. Quando ele lia um livro ele se entregava por inteiro às vírgulas e aos ponto-e-vírgulas, ao espaço depois do ponto e antes da letra maiúscula da próxima frase. Ele descobria os espaços em uma sala onde o silêncio ajuntava; as dobras dos tecidos das cortinas, as tigelas fundas da prataria da família. Quando pessoas falavam com ele, ele escutava menos e menos do que eles não eram. Ele aprendeu a decifrar o sentido de certos silêncios, o que é como resolver um caso difícil sem pistas, não apenas intuição. E ninguém porderia acusá-lo em não ser prolífico em seu métier escolhido. Diariamente, ele produzia épicos inteiros de silêncio. No começo foi difícil. Imagine o fardo de se manter em silêncio quando sua criança pergunta se Deus existe, ou a mulher que você ama pergunta se você a ama de volta. No início, Babel ansiava pelo uso de apenas duas palavras: Sim e Não. Mas ele sabia que apenas proferir uma única palavra seria destruir a delicada fluência do silêncio.
Mesmo depois de eles terem prendido ele e queimado todos seus manuscritos, que eram todos páginas em branco, ele se recusava a falar. Nem menos um gemido quando eles deram nele uma pancada na cabeça, um pontapé de bota na virilha. Apenas no último momento possível, quando ele estava frente ao pelotão de fuzilamento, que o escritor Babel subitamente percebeu a possibilidade de seu erro. Enquanto os rifles eram apontados ao seu peito ele se perguntou se o que ele tomou pela riqueza do silêncio era na verdade a pobreza de nunca ser escutado. Ele tinha pensado que as possibilidades do silêncio humano não tinham fim. Mas quando as balas rugiram dos rifles, seu corpo foi crivado de verdade. E uma pequena parte dele riu amargamente porque, de qualquer maneira, como que ele poderia ter esquecido o que ele sempre soube: Não há nada que se iguale ao silêncio de Deus.”
(Nicole Krauss)

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(as duas traduções de minha autoria)
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Agora vamos desligar o sarcasmo para tratar de algumas obviedades. A expressão "literatura feminina" é machista. Ninguém fala em literatura masculina. O que haveria de feminino intrínseco nos trechos acima? Existe talvez uma tendência de autoras mulheres de tratarem de certos temas, assim como existiria de homens tratarem de outros(que não vão ser "mais universais" só porque a inércia da cultura diz que são)... Mas a grande literatura, a literatura realmente importante, não seria aquela que supera tendências, ou as toma como desimportantes? Não foi espanto e interesse o que causou o Knausgard ao falar de paternidade quando criar filhos era tido como um assunto para mulheres?

Talvez não exista mesmo o leitor que vá desconsiderar por completo o gênero autoral na hora de apreciar um livro em suas sutilezas, mas acho mais interessante que se tome o cuidado para isso não passar de um detalhe: falar que toda a brutalidade dos contos da Flannery vem de uma pessoa com útero da mesma forma como se fala que vem de uma pessoa que criava galinhas na infância e ensinou uma delas a andar pra trás. Associá-la a outras obras pelo conteúdo de sua escrita, a religiosidade desgraçada, a descrença na capacidade do ser humano de se superar, e não pela caixinha que ela fazia x na hora de preencher formulários me parece mais produtivo e respeitoso à artista.

É de fato ruim que a maioria dos autores é masculina, pelo mesmo motivo que é ruim que a maioria seja sempre masculina em quase todos ofícios de alguma importância (os que não se baseiam em força física): o desperdício imenso de talento não incentivado, desconsiderado porque ambição à grandeza (simbólica, sob quaisquer parâmetros) não ser algo tido como importante para mulheres.

Por outro lado, se o incentivo for exagerado num esforço puramente compensatório ("escreva mais, precisamos de mais mulheres escrevendo") fica forçada uma distorção que deixa de lado o que há de mais importante, a qualidade do resultado. Tomar o "lugar de fala" como critério qualitativo importantíssimo debanda para essa crueldade que faz de um livro ruim ou bom ser igualmente um "livro feminino", do qual precisaríamos mais, sem perceber que esse raciocínio serve para fomentar o discurso dos poucos idiotas remanescentes (tipo o Naipaul uns anos atrás falando merda) que acreditam que escrever literatura não é coisa para mulheres. Escrever é para todos, mantendo-se o critério implacável da qualidade.