terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sugestão para uma tradução brasileira de Infinite Jest

A tradução "perfeita" de Infinite Jest se mostra impossível a partir do título. É uma citação de Hamlet (o pobre yorick, etc), que é uma peça sem uma "tradução padrão" em nosso meio cultural. A palavra jest se traduz dificilmente pro português: a linhagem imediata dela do inglês é jester, bobo da corte, que não tem no português correspondente em forma de verbo ou substantivo para descrever o que seria o "ato básico" do jester. A palavra brincadeira é corriqueira, dia-a-dia, demais para jest, que é uma palavra antiga. Só que não é só antiga, é antiga mas ainda está bastante presente (tanto pela palavra jester, em todos os baralhos do mundo, ou na expressão "surely you jest" que é meio que utilizada num pedantismo auto-irônico).

As palavras antigas do português para falar brincadeira, no entanto, todas tem uma sonoridade ou aparência excessivamente esquisitas (em um livro que faz do esquisito ferramenta frequentemente utilizada, e portanto não precisa de mais ainda do que já tem). Galhofa faz lembrar farofa, chiste tem uma sonoridade horrível, gracejo a palavra praticamente usa um monóculo: tudo isto daria ao livro uma aparência de rebuscamento que não é desejável (uma vez que faz do rebuscamento ferramenta frequentemente etc... é um livro complexo, é).

(a tradução portuguesa botou piada, o que a princípio eu achei horrível, mas o Galindo me disse que parece que por lá eles usam a palavra de forma diferente de nós: eles podem dizer "não vi piada nisto" para falar que não se viu graça... o que faz a coisa funcionar melhor, certamente)

A palavra graça tem subtons religiosos, que ainda que não sejam inteiramente descabidos dado o forte eixo de moralidade/ética e de certo conservadorismo esganiçado presentes no livro, e acaba por trazer tudo isto pro título, distorcendo um pouco. Alguma distorção é inevitável, claro, e acabam por acontecer justamente nos pontos-problema, caso declarado aqui neste título. Graça infinita, no entanto, parece algo inteiramente positivo, objetivo-de-vida e tudo mais, algo que colocado no contexto da questão maldição-de-midas do hedonismo realmente faz com que a solução seja ao mesmo tempo declaração-de-fracasso. Parece no fim a escolha do Galindo foi "Infinda Graça", trazendo a ambiguidade do hedonismo pro título do livro (com sua subjacente sonoridade de "e o fim da graça"): ainda que seja uma intervenção pesada por parte do tradutor, colocando a mais no título não só a religiosidade do "graça" como a armadilha do infinda e deixando a coisa bem sobrecarregada, acabo por achar que é uma escolha razoável (já que é um livro também sobre o excesso).

[edição posterior e tardia: parece que ele optou de volta pelo Graça Infinita, mais discreto. Não sou contra.]

Ainda assim, no outro dia eu acabei pensando numa outra opção que não vi sendo discutida pelos blogs e caixas de comentários e etc mundo afora. Eu pensei na possibilidade de fazer algo do tipo "Infinite jest - a brincadeira sem limites" ou "(...) - o filme mortífero".

Vários filmes com expressões em inglês meio intraduzíveis como Pulp Fiction, Crash (o do Cronenberg/Ballard), ou Highlander, acabam chegando aqui no brasil mediados pela prática bastante esteticamente questionável de colocar um subtítulo em português mercadologicamente explicativo (tempos de violência, chamando quem quer ver filme violento, estranhos prazeres, para quem quer ver filmes esquisitos, ou guerreiro imortal, aparentemente chamando o interesse de todo mundo dos anos 80). Trazer isto para o livro tem várias vantagens. O Infinite Jest é, no livro, um filme, afinal de contas (que ainda que seja de vanguarda traz como objetivo exclusivo o prazer do expectador, o que para executivos das empresas cinematográficas é o objetivo de todo filme), e o romance discute com grande frequência e profundidade a cultura de massa e de como que ela em si é uma espécie de hedonismo (arqui-inimigo e objeto de fascínio do livro); traz-se à tona com este subtítulo não só uma prática da cultura de massa brasileira, como também fica sublinhada a distância da cultura americana em relação a nossa própria realidade, o que a meu ver é algo bom de se ter no batente da porta de entrada do livro. O Infinite Jest, ainda que ele obviamente tenha várias questões que são Universalmente Relevantes, é a narração de um mundo que é extremamente americano: suas artificialidades (não só as inerentes ao ofício literário, já que é um livro em que a artificialidade juro que este é o último parênteses assim) serão ainda mais alienígenas dado nosso contexto de capitalismo mambembe, em que todo em voz alta todo mundo é mei esquerdinha e que fica xingando no twitter que o Black Friday não ter descontos de verdade, ó desgraça.

E, claro, outro ponto forte desta opção é o fato que fiquei um tempão rindo quando pensei nela.

A desvantagem clara é de que é uma escolha tradutória editorialmente (mercadologicamente) impraticável, já que poucas pessoas das poucas pessoas que vão se dispor a comprar a mercadoria Obra Prima da Literatura Norteamericana vão querer algo que remonte tão fortemente ao trash na capa e lombada de seus enfeites de estante. Já não basta a editora ter de custear uma tradução gigantesca (o tradutor é pago por laudas, afinal) e guardar todo aquele estoque encalhado (que ocupa bem mais espaço do que um livro normal), acho que seria pedir demais pedir que eles levem um prejuízo ainda maior com a empreitada. De qualquer maneira fica aí minha sugestão platônico-trash, que se não serviu de nada pelo menos me deu algum tempo de ficar-rindo-sozinho.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Preâmbulo do Suttree, traduzido

Um parto árido, traduzir este troço. Três páginas, em bem mais do que três horas.

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Caro amigo agora nas empoeiradas horas semrelógio do município quando as ruas jazem negras e fumegantes na esteira dos caminhões-pipa e agora quando os bêbados e os sem-teto lançados às praias em abrigos de paredes em becos ou lotes abandonados e gatos avançam adiante com ombros altos e se inclinam nos perímetros cruéis dos arredores, agora nesses corredores de tijolo ou godo enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fiosdeluz fazem uma harpa gótica de portas de porão alma nenhuma andará salvo você.

Velhas paredes de pedra insondadas pela metereologia, alojadas em seus estriados ossos fósseis, escaravelhos de calcário pregueados no chão deste uma vez mar interno. Árvores finas e escuras através de estacadas férreas de acolá onde os mortos mantém sua própria pequena metrópolis. Curiosa arquitetura marmórea, estela e obelisco e cruz e pequenas pedras desgastadas pela chuva onde nomes ficam turvos com os anos. Terra abarrotada com amostras do ofício do fazedor de caixões, os ossos empoeirados e seda apodrecida, a vestimenta de morte manchada com carniça. Lá fora sob a luz de lâmpada azul os trilhos de carrinho rodam para a escuridão, encurvados feito calcanhares de galos no crepúsculo pechisbeque. O aço vaza de volta o calor do dia, você pode senti-lo pelos chãos dos seus sapatos. Depois dessas enrugadas paredes de armazém descendo pequenas e arenosas ruas onde automóveis baqueados amuam em pedestais de concreto. Através de viveiros de coelhos de sumagre e uva-de-rato e madressilva dando para os bancos de barro marcados da ferrovia. Vinhas cinzas enroladas para a esquerda neste hemisfério norte, o que as serpenteia molda as conchas do mar. Ervas daninhas brotam de cinzas e tijolos. Uma pá a vapor erguida em abandono solitário contra o céu noturno. Cruze aqui. Perto das agulhas e das eclissas onde motores tossem feito leões no escuro do patio. Para um município mais escuro, depois de lâmpadas cegadas por apedrejamento, depois de choças oblíquas e fumegantes e cães chineses e pneus pintados onde crescem flores sujas. Pavimentos térreos rachados de ruínas, lento cataclisma da negligência, os fios que barrigam poste a poste atravessando as constelações suspensas com fios de pipa, com facões compostos de garrafas claudicantes ou os brinquedos das crianças mais pequenas. Acampamento dos amaldiçoados. Recintos talvez onde leprosos gotejantes erram sem sinos. Acima o calor e a improvável linha do céu da cidade  uma lua de latão ascendeu e as nuvens escorrem feito tinta aguada. Os prédios estampados contra a noite como um baluarte para um abandonado mundo mais adiante, velhos propósitos esquecidos. Conterrâneos vem por milhas com a terra em seus sapatos e sentam o dia inteiro como mudos no mercado. Esta cidade construída sob nenhum paradigma conhecido, arquitetura vira-lata lendo pra trás por meio das obras do homem em uma breve delineação dos desordenados e loucos aberrantes. Um carnaval de formas aprumado na planície fluvial que secou a seiva da terra por milhas do arredor.

Paredes das fábricas de tijolo velho e escuro, trilhas de uma linha de espora crescida com ervas daninhas, um curso de drenagem azul e putrefato onde filamentos escuros de impurezas sem nome balançam na correnteza. Painéis de estanho entre vidros nas molduras enferrujadas das janelas. Há uma boca aberta em forma de lua no globo da lâmpada de rua em que uma pedra foi e deste orifício ali venta abaixo pelo helix constante de insetos desejosos uma esvaída e contínua chuva das mesmas formas queimadas e sem vida.

Aqui na boca do riacho os campos correm até o rio, a lama em delta e despindo de seu rico aluvial ossos abrigados e lixo medonho, um sargaço de madeira de caixotes e camisinhas e cascas de frutas. Latas velhas e jarros e artefatos caseiros arruinados que se erguem do atoleiro fecal das planícies como pontos de referência nas áreas sem rastros da plaina de demência temporã. Um mundo além de toda fantasia, malevolente e tátil e dissociado, as lâmpadas explodidas como pólipos tosquiados semitranslúscidos e cor-de-caveira balançando em descida cegamente e espectrais olhos de óleo e agora e de novo as formas encalhadas e fedorentas de humanos fetais inchados como jovens pássaros de olhos arregalados e azulados ou cinza insípido. Além no escuro o rio flui em um lodo indolente direcionado aos mares meridionais,  correndo pra fora do milho achatado pela chuva e colheitas mesquinhas e jardins do barro do rio de donos de terra sertão acima, raspando seu caminho como pó ósseo, carretado com o passado, sonhos dispersados na água de alguma maneira, nada jamais perdido casas flutuantes correm pelas suas amarras. A lama da maré morta pela costa jaz acanelada e escorregadia como a posta de peixe cavernosa de alguma besta imensamente naufragada e além o sertão se desenrola para o sul e as montanhas. Onde caçadores e mateiros uma vez dormiram em suas botas diante da luz morrediça de suas mil fogueiras e continuaram, velhos antepassados teutônicos com olhos incandescidos pela luz visionária de uma rapacidade massiva, onda após onda dos violentos e insanos, seus cérebros atiçados com análogos sem rasto de tudo que foi, arianos esguios com seu livreto semítico revogado reencenando dramas e parábolas nele contidas e sem pensamentos e pálidos com uma ânsia que nada salvo a total restituição das trevas poderia aplacar.

Nós somos vindos a um mundo dentro do mundo. Estes alcances alienígenas, estes malgrado afundamentos e terras devastadas intersticiais que os justificados vêem de carruagem e carro outra vida sonha. Malformados ou negros ou degenerados, fugitivos de todas ordens, estrangeiros em todas terras.

A noite está quieta. Como um campo antes da batalha. A cidade assaltada por uma estranha coisa e virá da floresta ou do mar? Os encarregados do muro emparedaram os pálidos, os portões estão fechados, mas eis que a coisa está dentro e pode você adivinhar sua forma? Onde ele é mantido ou qual o contrário de seu rosto? Será ele um tecelão, uma lançadeira sangrenta arremessada por uma deformação no tempo, um cardador de almas do cochilo do mundo? Ou um caçador com seus cães ou carregam sua carreta morta cavalos de osso atravessando as ruas e chamaria ele seu ofício para cada? Caro amigo ele não é algo no qual se pode alongar pois é por este expediente que ele é convidado pra dentro.

O resto de fato é silêncio. Começou a chover. Chuva leve de verão, você consegue vê-la caindo inclinada nas luzes do município. O rio jaz em um graal de quietude. Aqui da ponte o mundo embaixo aparenta um presente de simplicidade. Curioso, não mais. Em baixo aqui na gruta de luz caída um gato transpira de pedra a pedra através de godos preto líquido e costurado em rápidos antípodas sobre a rua chuvaescura  para sumir gato e contragato nas obras fendidas além. Iluminação pálida de verão longe rio abaixo. Uma cortina está ascendendo no mundo ocidental. Uma chuva fina de fuligem, besouros mortos, pequenos ossos anônimos. A audiência senta enteiada em pó. Nas cavidades oculares evisceradas da caveira do interlocutor uma aranha dorme e as ruínas em junção do tolo enforcado dependuram-se das moscas, pêndulo de osso em manta de retalhos. Formas de quatro pés vão pra lá e pra cá por cima das pranchas. Formas mais rudes sobrevivem.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pensamento do dia, depois de quase terminar de traduzir um conto do DFW

Pegar um texto literário de linguagem trabalhada e passá-lo de um idioma pra outro é tipo transpor uma dança para um novo lugar onde a gravidade funciona de forma diversa e os dançarinos tem um número diferente de pernas.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Um problema da crítica

Um problema inescapável à toda crítica, independente de corrente filosófica, filiação estética ou estado de desenvolvimento intelectual, é algo que na verdade se deriva do egocentrismo: quando o crítico fala mal de certa obra, o protagonista da fala é o crítico, que fica acima do objeto comentado (aquém do sucesso em seus critérios, etc); quando o crítico fala bem da obra, o protagonista da fala (o foco do holofote) é a obra. E tem gente que tem uma preferência excessiva pelo protagonismo.

(claro que isto não quer dizer que todas as críticas negativas se expliquem por esta questão e sejam portanto sempre inválidas (eu mesmo já resenhei alguns livros e no final o saldo de avaliações foi negativo), mas às vezes é útil para entender algumas críticas que de outra forma são meio incompreensíveis: a pessoa parece estar se achando incrivelmente esperta por falar o que está falando?)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Primeiro parágrafo do Suttree, do Cormac McCarthy, traduzido

Postei no facebook uns dias atrás, estou colocando (colando) aqui, agora, também.

"Caro amigo agora nas empoeiradas horas semrelógio do município quando as ruas jazem negras e fumegantes na esteira dos caminhões-pipa e agora quando os bêbados e os sem-teto lançados às praias em abrigos de paredes em becos ou lotes abandonados e gatos avançam adiante com ombros altos e se inclinam nos cruéis perímetros dos arredores, agora nesses corredores de tijolo ou godo enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fiosdeluz fazem uma harpa gótica de portas de porão alma nenhuma andará salvo você."

(No original: Dear friend now in the dusty clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the water trucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth high-shouldered and lean in the grim perimeters about, now in these soot -blacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Suicídio como uma espécie de presente

(Continuo na onda de passar o tempo fazendo traduções. Este aqui demorou o dobro do tempo dos dois contos do Barthelme juntos, a linguagem é meio truncada, estranha. Tem umas coisas que não sei se ficaram lá essas coisas, mas de qualquer maneira aí vai. É um dos meus cinco contos favoritos.)

(Os números são notas de pé de página, que coloquei como pé-de-parágrafo para diminuir os scroll-downs)
Suicídio como uma espécie de presente (David Foster Wallace)
Uma vez havia uma mãe que de fato tinha bastante dificuldades, emocionalmente, por dentro.
Da forma como ela lembrava, ela sempre tinha dificuldades, mesmo quando criança. Ela lembrava de poucos dos específicos de sua infância, mas o que ela podia lembrar eram sentimentos de auto-desprezo, terror , e desespero que pareciam estar com ela sempre.
De uma perspectiva objetiva, não seria impreciso dizer que esta futura mãe teve umas merdas psicológicas bem pesadas colocadas em cima dela quando tinha sido menininha, e parte desta merda seria qualificável como abuso dos pais.  Sua infância não tinha sido tão ruim como algumas, mas não tinha sido nenhum piquenique. Tudo isso, embora preciso, não seria exatamente o ponto.
O ponto era que, de uma idade tão inicial quanto ela podia se lembrar, esta futura mãe se odiava. Ela via tudo na vida com apreensão, como se cada ocasião ou oportunidade fosse alguma espécie de exame terrivelmente importante para o qual ela tinha sido preguiçosa ou burra demais para se preparar adequadamente. A sensação era a de que como se uma nota perfeita em tal exame era necessária para poder impedir alguma punição estilhaçante.1 Ela se aterrorizava de tudo, e ficava aterrorizada de demonstrar isto.
1) Os pais dela, a propósito, não batiam nela e nem mesmo a disciplinavam, ou a pressionavam.
Esta futura mãe sabia perfeitamente bem, desde uma idade jovem, que esta constante e horrível pressão que ela sentia era uma pressão interna. Que não era culpa de mais ninguém. E então ela se odiava ainda mais. Suas expectativas de si mesmo eram de completa perfeição, e cada vez que ela ficava aquém da perfeição ela se enchia de um insuportável e mergulhante desespero que ameaçava estilhaçá-la como um espelho barato2. Estas altas expectativas se aplicavam a cada departamento da vida da futura mãe, particularmente aqueles departamentos que envolviam a aprovação ou reprovação de outros. Ela foi, portanto, na infância e na adolescência, vista como inteligente, atraente, popular, impressionante; ela era elogiada e aprovada. Colegas aparentavam invejar sua energia, ânimo, aparência, inteligência, disposição e infalível consideração pelas necessidades e sentimentos dos outros3; ela tinha poucos amigos próximos. Por toda sua adolescência, autoridades como professores, empregadores, líderes de tropa, pastores e conselheiros do Federal Student Aid comentavam que a jovem gestante ‘aparentava ter expectativas muito, muito altas de si mesma’, e enquanto esses comentários eram frequentemente endereçadas em um espírito de preocupação gentil ou repreensão, não havia como não discernir neles certo inequívoco tom de aprovação, - do julgamento imparcial e objetivo e decisão de aprovar – e de qualquer maneira a futura mãe sentia (por um momento) aprovada. E se sentia vista: seus padrões eram altos. Ela tomava certo orgulho abjeto em sua inclemência consigo mesma4
2) Os pais dela tinham sido de baixa-renda, fisicamente imperfeitos,  e não muito inteligentes – características que a criança  se detestava por perceber.
3) As expressões relaxa ou fica tranquilo não tinham àquela época se tornado correntes (assim como merda psicológica; nem abuso de pais ou até mesmo perspectiva objetiva)
4) De fato, uma explicação que os próprios pais da future mãe davam por discipliná-la tão pouco era que sua filha parecia se censurar tão impiedosamente por qualquer insuficiência ou transgressão que discipliná-la pareceria, citação, “um pouco como chutar um cachorro”.
Já pela época em que ela era crescida, seria acurado dizer que a futura mãe de fato estava tendo bastante dificuldades internas.
Quando ela se tornou uma mãe, as coisas ficaram ainda mais difíceis. As expectativas da mãe de sua pequena criança também eram, por fim, impossivelmente altas. E cada vez que a criança ficava aquém, sua inclinação natural era odiá-la. Em outras palavras, toda a vez que ela (a criança) ameaçava comprometer os altos padrões que eram tudo que a mãe sentia realmente ter, dentro, o auto-ódio instintivo da mãe tendia se projetar para fora e para baixo na direção da criança em si. Esta tendência se agravava pelo fato que existia apenas uma separação muito pequena e indistinta na mente da mãe entre sua própria identidade e a da pequena criança. A criança aparentava em certo senso ser o próprio reflexo da mãe em um espelho diminuidor e profundamente falho. Portanto toda vez que a criança era rude, gananciosa, abominável, estúpida, egoísta, cruel, desobediente, preguiçosa, tola, voluntariosa, ou infantil, a inclinação mais profunda e natural da mãe era odiá-la.
Mas ela não podia odiá-la. Nenhuma boa mãe pode odiar sua criança ou julgá-la ou abusá-la ou desejá-la nada de mal. A mãe sabia disso. E seus padrões para si própria como mãe eram, como era de se esperar, extremamente altos. E então toda vez que ela ‘escorregava’, ‘estourava’, ‘perdia sua paciência’ e expressava (ou até sentia) ódio (ainda que breve) pela criança, a mãe imediatamente mergulhava em tamanho abismo de auto-recriminação e desespero que ela sentia que simplesmente não poderia aguentar. Consequentemente a mãe estava em guerra. Suas expectativas estavam em conflito fundamental. Era um conflito em que ela sentiu que sua vida em si estava em jogo: um fracasso em superar sua insatisfação instintiva com sua criança resultaria em uma terrível, estilhaçante punição que ela sabia que seria ela que ministraria, dentro. Ela estava determinada – desesperada – em ser bem sucedida, em satisfazer suas expectativas de si como mãe, custe o que custar.
De uma perspectiva objetiva, a mãe era incrivelmente bem-sucedida em seus esforços de auto-controle. Em sua conduta externa para a criança, a mãe era infatigavelmente amável, compassiva, empática, paciente, calorosa, efusiva, incondicional, e desprovida de qualquer capacidade aparente de julgar ou reprovar ou recusar amor em qualquer forma. Quanto mais desprezível era a criança, mais amável a mãe exigia de si mesma ser. Sua conduta era, por qualquer padrão do que uma mãe extraordinária deveria manter, impecável.
Em troca, a pequena criança, enquanto crescia, amou a mãe mais do que todas outras coisas no mundo colocadas juntas. Se tivesse a capacidade de falar de si verdadeiramente de alguma maneira, a criança teria dito que se sentia ser muito uma criança perversa, detestável que por meio de alguma imerecida jogada de ótima sorte conseguiu ter a melhor, mais amável e paciente e linda mãe do mundo inteiro.
Dentro, enquanto a criança crescia, a mãe se enchia de auto-ódio e desprezo. Certamente, ela sentia, o fato que a criança mentia e trapaceava e aterrorizava os bichos de estimação da vizinhança era culpa da mãe; certamente a criança estava simplesmente expressando para todo o mundo ver suas próprias deficiências patéticas e grotescas como mãe. Então, quando a criança roubou o dinheiro da UNICEF que sua turma tinha recolhido ou segurado um gato pela cauda e golpeado ele repetidas vezes contra a quina da casa de tijolos do vizinho, ela tomou as deficiências grotescas da criança para si própria, recompensando as lágrimas e auto-recriminações da criança com um perdão de amor incondicional  que fez com que ela aparentasse para a criança ser seu único refúgio em um mundo de expectativas impossíveis e julgamentos impiedosos e infinita merda psíquica. E enquanto ele (a criança) cresceu, a mãe tomou tudo que era imperfeito nele bem fundo dentro de si e aguentou tudo e então o absolveu, redimindo-o e renovando-o, na mesma medida em que ela acrescentava ao seu próprio fundo de ódio.
E assim foi, por toda sua infância e adolescência, de tal maneira que, quando a criança era velha o bastante para se registrar para várias licenças e permissões, a mãe estava quase inteiramente cheia, profundamente, com ódio: ódio por si própria, pela criança infeliz e delinquente, por um mundo de expectativas impossíveis e julgamentos impiedosos. Ela não podia, claro, expressar nada disso. E então o filho – desesperado, como são todas as crianças, para retribuir o amor perfeito que só pode se esperar de mães – expressou isto tudo para ela.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Continho do Barthelme traduzido

Gosto bastante desse conto do Barthelme. Por favor não me pergunte o porquê. Aí hoje resolvi traduzi-lo, meio descompromissadamente (com preguiça de pesquisar muito afundo em alguns termos mais difíceis, tipo as cores bizarras que aparecem listadas no meio do conto. Se alguém tiver alguma sugestão/correção, pode comentar aí embaixo). Talvez eu faça mais no futuro, achei divertido.

Montanha de vidro, de Donald Barthelme.

1.        Eu estava tentando escalar a montanha de vidro.
2.        A montanha de vidro fica na esquina da Décima Terceira Rua com a Oitava Avenida.
3.        Eu tinha alcançado a encosta inferior.
4.        Pessoas olhavam para cima na minha direção.
5.        Eu era novo na vizinhança.
6.        Não obstante eu tinha conhecidos
7.        Eu tinha amarrado pitões aos meus pés e cada mão agarrava robusto desentupidor de pia.
8.        Eu estava a uns duzentos pés de altura.
9.        O vento era amargo.
10.     Meus conhecidos haviam se juntado ao pé da montanha para oferecer encorajamento.
11.     “Cretino”.
12.     “Babaca”.
13.     Todo mundo na cidade sabe a respeito da montanha de vidro.
14.     Pessoas que moram aqui contam histórias a respeito.
15.     Ela é apontada para visitantes.
16.     Tocando o lado da montanha, sente-se um frio agradável.
17.     Espreitando para dentro da montanha, vê-se profundidades de azul-branco cintilantes.
18.     A montanha se sobrepõe por cima daquela parte da Oitava Avenida como um esplêndido e imenso prédio de escritórios.
19.     O topo da montanha some para dentro das nuvens, ou em dias sem nunvens, para dentro do sol.
20.     Eu desprendi o desentupidor de pia da mão direita deixando o da esquerda no lugar.
21.     Então eu estiquei e prendi de novo o da direita um pouco mais acima, depois do qual eu avancei minhas pernas para novas posições.
22.     O ganho era mínimo, não dava o comprimento de um braço.
23.     Meus conhecidos continuaram a comentar.
24.     “Filho da puta imbecil”.
25.     Eu era novo na vizinhança.
26.     Nas ruas havia várias pessoas com olhos perturbados.
27.     Veja por si mesmo.
28.     Nas ruas havia centenas de jovens aparecendo em portas, atrás de carros estacionados
29.     Pessoas mais velhas levavam seus cães para passear.
30.     As calçadas estavam cheias de merda de cachorro em cores brilhosas: ocre, cor de umbra, amarelo Marte, sienna, viridian, marfim preto, rose madder.
31.     E alguém tinha sido apreendido derrubando árvores, uma fileira de elmos danificados entre VWs e Valiants.
32.     Feito com uma motosserra, sem dúvida
33.     Eu era novo na vizinhança mas tinha acumulado conhecidos.
34.     Meus conhecidos passavam uma garrafa marrom de mão em mão.
35.     “Melhor que um chute na virilha”
36.     “Melhor que um cutucão no olho com um graveto afiado”
37.     “Melhor que um tapa na barriga com um peixe molhado”.
38.     “Melhor que um golpe nas costas com uma pedra”.
39.     “Ele não vai fazer splash quando ele cair, não?”
40.     “Eu espero estar aqui para ver. Molhar meu lenço no sangue”.
41.     “Tolo com cara de peido”
42.     Eu desprendi meu desentupidor de pia da mão esquerda deixando o da direita no lugar.
43.     E estiquei o braço.
44.     Para escalar a montanha de vidro, precisa-se primeiro de um bom motivo.
45.     Ninguém jamais tinha escalado a montanha em nome da ciência, ou em busca da fama, ou porque a montanha era um desafio.
46.     Aqueles não eram bons motivos.
47.     Mas bons motivos existem.
48.     No topo da montanha existe um castelo de ouro puro, e em uma sala da torre do castelo fica...
49.     Meus conhecidos estavam gritando para mim.
50.     “Dez contos que você se arrebenta nos próximos quatro minutos!”
51.     ... um lindo e encantado símbolo.
52.     Eu desprendi o desentupidor de pia da mão direita deixando o da esquerda parado.
53.     E estiquei o braço
54.     Estava frio ali a 206 pés e quando eu olhei para baixo não fui encorajado.
55.     Uma pilha de cadáveres de cavalos e cavaleiros fazia um anel no pé da montanha, vários homens morrendo e gemendo ali.
56.     “O enfraquecimento do interesse libidinoso na realidade tem recentemente chegado a um fim” (Anton Ehrenzweig)1
57.     Algumas perguntas aglomeravam-se na minha cabeça.
58.     Será que alguém escala uma montanha, passando por considerável desconforto pessoal, simplesmente para desencantar um símbolo?
59.     Será que os egos mais fortes de hoje ainda precisam de símbolos?
60.     Eu decidi que a resposta para essas perguntas era “sim”.
61.     De outra maneira o que eu estaria fazendo ali, 206 pés acima dos elmos motosserrados, cuja carne branca eu conseguia ver da minha altura?
62.     A melhor forma de fracassar a escalada da montanha era ser um cavaleiro de armadura cheia, um cujo cavalo tinha cascos que batem faíscas ígneas das laterais da montanha.
63.     Os seguinte-nomeados cavaleiros fracassaram ao tentar escalar a montanha e gemiam na pilha: : Sir Giles Guilford, Sir Henry Lovell, Sir Albert Denny, Sir Nicholas Vaux, Sir Patrick Grifford, Sir Gisbourne Gower, Sir Thomas Grey, Sir Peter Coleville, Sir John Blunt, Sir Richard Vernon, Sir Walter Willoughby, Sir Stephen Spear, Sir Roger Faulconbridge, Sir Clarence Vaughan, Sir Hubert Ratcliffe, Sir James Tyrrel, Sir Walter Herbert, Sir Robert Brakenbury, Sir Lionel Beaufort, e vários outros.2
64.     Meus conhecidos se moviam entre os cavaleiros caídos
65.      Meus conhecidos se moviam entre os cavaleiros caídos, coletando anéis, carteiras, relógios de bolso, favores de damas.
66.     “Calma reina no país, graças à sabedoria confiante de todos” (M. Pompidou)3
67.     O castelo dourado é guardado por uma águia de cabeça fina com rubis ardentes no lugar de olhos.
68.     Eu desprendi o desentupidor da mão esquerda, perguntando se
69.     Meus conhecidos desprendiam dentes de ouro dos cavaleiros ainda não-mortos.
70.     Nas ruas havia pessoas escondendo suas tranqüilidades atrás de uma fachada de pavor vago.
71.     “O símbolo convencional (feito o rouxinol, comumente associado com melancolia), apesar de ser reconhecido apenas por acordo, não é um signo (como o semáforo) porque, de novo, presumidamente desperta sentimentos profundos e é tido como possuidor de propriedades além do que o olho sozinho vê” (Um Dicionário de Termos Literários)
72.     Uma quantia de rouxinóis com semáforos amarrados às suas pernas passou por mim voando.
73.     Um cavaleiro em armadura rosa pálida apareceu acima de mim.
74.     Ele afundou, sua armadura fazendo pequenos sons de guincho contra  o vidro.
75.     Ele me deu uma olhada de soslaio enquanto passava por mim.
76.     Ele proferiu a palavra “Muerte”4 enquanto ele passou por mim.
77.     Eu desprendi o desentupidor da mão direita.
78.     Meus conhecidos debatiam a questão, qual deles ficaria com meu apartamento?
79.     Eu revisei as formas convencionas de alcançar o castelo.
80.     A forma convencional de alcançar o castelo são como segue: “a águia afunda suas garras afiadas na carne tenra do jovem, mas ele aguentou a dor sem um som, e agarra os dois pés do pássaro com aas mãos. A criatura aterrorizada o ergue alto no ar e começa a circundar o castelo. O jovem se segura bravamente. Ele viu o palácio reluzente, que por raios pálidos da lua parecia com uma lâmpada turva. E ele viu as janelas e varandas da torre do castelo. Sacando uma faca de seu cinto, ele corta ambas as patas da águia. O pássaro ascende alto no ar com um grito, e o jovem cai levemente para uma varanda larga. No mesmo momento uma porta é aberta, e ele viu um pátio cheio de flores e árvores, e ali, a linda e encantada princesa” (O livro de fadas amarelo)5
81.     Eu tinha medo
82.     Eu tinha esquecido os bandaids.
83.     Quando a águia afundou suas garras afiadas em minha carne tenra—
84.     Eu deveria voltar pelos Bandaids?
85.     Mas se eu voltar pelos bandaids, eu teria que suportar o desprezo de meus conhecidos.
86.     Resolvi prosseguir sem os Bandaids
87.     “Em alguns séculos, a imaginação Del (o homem) tem feito da vida uma prática intensa de todas as energias mais encantadoras” (John Masefield)6
88.     A água afundou suas garras afiadas em minha carne tenra.
89.     Mas eu agüentei a dor sem um som, e segurei os dois pés do pássaro com minhas mãos.
90.     Os desentupidores de pias permaneceram no lugar, em ângulos-retos na lateral da montanha.
91.     A criatura aterrorizada me ergueu alto no ar e começou a circundar o castelo.
92.     Eu segurei bravamente.
93.     Eu vi o palácio reluzente, que pelos raios pálidos da lua parecia com uma lâmpada turva; e eu vi as janelas e varandas da torre do castelo.
94.     Sacando uma pequena faca do meu cinto, eu cortei ambos os pés da águia.
95.     O pássaro ascendeu alto no ar com um grito, e eu caí levemente em uma varanda larga.
96.     Ao mesmo tempo uma porta é aberta, e eu vi um pátio cheio de flores e árvores, e ali, o lindo símbolo encantado.
97.     Eu me aproximei do símbolo, com suas camadas de significado, mas quando eu encostei nele, ele mudou apenas para uma linda princesa.
98.     Eu joguei a linda princesa de ponta cabeça montanha abaixo para meus conhecidos.
99.     Podia-se contar com eles para lidar com ela.
100.  Nem são águias plausíveis, de modo nenhum, nem por um momento.

1.        Uma citação (provavelmente) espúria de uma pessoa (provavelmente) fictícia.
2.        Nomes escolhidos ou inventados aleatoriamente para representar fidalguia inglesa.
3.        Ex-presidente da frança. A citação é provavelmente espúria
4.        “Morte”
5.        Uma de uma série de coletâneas de contos de fadas editadas por Andrew Lang.
6.        Poeta tradicional inglês (1878-1967); tornou-se poeta laureado da Inglaterra em 1930.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Conselho a quem for ver The counselor

Ainda que eu tenha gostado bastante do filme, acho bastante compreensível certa recepção negativa ao filme The Counselor, dirigido pelo Ridley Scott e de roteiro do grande Cormac McCarthy. O título do filme no Brasil teve como tradução mei trash porém mercadologicamente compreensível “O conselheiro do crime”, tentando trazer para as bilheterias o público Goodfellas/Godfather/etc. Curiosamente, acho que esta transição do título inespecífico do original (talvez só pra mim com sonoridade meio bíblica, sei lá) para o equivocado porém (para o espectador médio, imagino) comercialmente atrativo pode mostrar um pouco dos porquês da má recepção do filme por parte da crítica: o movimento mercadologicamente direcionado existente nesta tradução barateadora aparece também em algumas recepções decepcionadas do filme, já que o filme aparece sendo criticado por fracassar na tentativa de ser aquilo que ele apenas aparenta tentar ser e que na verdade nunca almejou alcançar.

Parece ser um filme normal, mas não é, é um filme que o Cormac McCarthy escreveu. Talvez as pessoas tenham ido meio desavisadas diante do sucesso anterior do No Country for Old Men (que ainda que seja uma história de final bastante atípico, tem uma estrutura bem simples de perseguição, presente em vários outros filmes) e do sucesso comercial do livro The Road (que também tem suas estranhezas, mas é muito carregado pelo amor filial, tanto que foi pro clube-de-livro da Oprah e tudo mais), mas o filme nada mais é do que uma história que é de se esperar do Cormac McCarthy, o ser humano como esta mistura triste de brutalidade e impotência, amargura e desespero, insignificância e maravilhamento.

Não sei como que a obra foi mercadologicamente apresentada nos EUA, mas aqui (e tinha até propaganda nos televisores da praça de alimentação do shopping) a coisa era toda baseada no star-appeal do elenco, um esquema “com vocês, ator X, ator Y, atriz Z”, etc. Compreensível, uma vez que é um número considerável de nomes grandes, mas ao mexer com o reconhecimento dos atores acaba-se por reforçar uma busca por reconhecer o filme diante de vários outros aparentemente parecidos: o desavisado (ou engabelado) entra no cinema querendo ver um filme de crime, como tantos outros ótimos já feitos antes. Ainda que de fato se trate de crimes os acontecimentos principais do filme, não é deles que se fala. O que se fala é de maldade.

(a partir daqui, spoilers, ou ESTRAGÕES, na ótima tradução que vi por aí pelas internets. Falando sério, nesse filme nem faz diferença saber o que acontece)

Diferente dos filmes de crime, aqui não se acompanha um enredo e seus acontecimentos. A ação desses acontecimentos até aparecem na tela, mas sem muita explicação: entendemos (se não nos distraímos) as coisas vários minutos depois do que elas acontecem, e não durante, e nunca isso se dá pela ação dos protagonistas, que vão apenas sofrendo os efeitos do que aconteceu muito longe de seus dedos. Esvazia-se qualquer elemento de surpresa e suspense da coisa, o que é o feijão-com-arroz do filme de crime, e ressalta-se sempre a perplexidade (outro substantivo abstrato importante pra obra do McCarthy, pode botar na listinha dois parágrafos acima). Os acontecimentos vão fugindo (ainda que brevemente) da capacidade do espectador de acompanhá-los de forma comparável à maneira como o plano do protagonista vai se distanciando de seu controle.

(vamos comparar com o Breaking Bad, por exemplo, que trata muito de crime: acompanhamos cada reviravolta com o cuidado de estudiosos de xadrez diante de uma partida elucidativa. Qualquer mistério serve apenas para realçar o suspense e aumentar o efeito de uma posterior revelação. Nenhum entendimento posterior em The Counselor vem acompanhado daquele arrá agradável, e sim um “olha, eu acho que é isto...”, e mesmo um entendimento possivelmente equivocado do encadeamento dos eventos não faria tanta diferença para o principal do filme, que são os monólogos)

É um filme em que até acontece muita coisa, mas nunca por ação direta dos personagens principais. Eles não puxam o gatilho, e nem aparece eles tomando a decisão de mandar ou telefonando para mandar puxar o gatilho. Só recebem a notícia que deu tudo errado, e reagem fugindo. Além disso, o que eles fazem é falar uns com os outros sobre como o mundo é um lugar hostil e horrível. E na linguagem bizarra e pomposa do McCarthy.

A linguagem pomposa (coisas do tipo “você há de encontrar”, o que não é uma citação direta , mas a coisa segue nesse espírito) aparece nos romances dele na voz de um personagem particularmente marcado (como O Juiz Holden, no Blood Meridian) ou nas descrições de cenário, servindo de contraste com os diálogos majoritariamente lacônicos, de falas monossilábicas. Como no filme não vai ter narrador hiper-descritivo como no texto dos romances, e neste caso não há um personagem só que agregue valor de estranheza incomum (como o Chigurgh do No Country for Old Men), a coisa se dissemina, causando dissonância de verossimilhança na coisa, elemento particularmente importante se de novo retornarmos ao campo de expectativas do filme de crime. Como que este lorde das drogas mexicano vai conseguir falar tão incrivelmente a respeito da dor da perda, etc. Se abraçarmos a estranheza do filme como um todo, não nos distraímos com essa dissonância e aproveitamos de verdade a beleza de cada frase.

É um filme, portanto, a ser comparado não com os Goodfellas/Departed da vida, e sim com o filme anterior roteirizado pelo Cormac, o Sunset Limited. Eu li só umas duas ou três peças de teatro medievais durante minha graduação em Letras, então não sou qualificado para dar este qualificativo, mas li pelas internets a respeito de críticos descrevendo o Sunset Limited como uma peça medieval a respeito da alma humana, em que os personagens fazem pouco e discutem e ponderam muito. The counselor segue este caminho, também. Um filme para se ouvir o que se diz, e não tanto para acompanhar o que acontece.

Não para dizer que o filme é uma obra-prima incrível: é de fato um pouco arrastado (os livros dele são lentos, mas um livro lento pode ser lido num ritmo mais tranquilo enquanto o filme a lentidão cansa), com algumas cenas dispensáveis (como o diálogo sobre snuff films, ou a Cameron Diaz na igreja, querendo se confessar ao padre e estragando um pouco a graça do enigma da maldade ao falar um pouco do próprio passado). Visualmente, o filme é belíssimo, o que é previsível já que estamos falando do Ridley Scott, mas acho que a aparência do Barden e da Diaz caiu um pouco demais pro caricato, bandidos meio Disneyficados... para um filme sobre a maldade ter um visual tão ruim para os vilões e ainda conseguir se sustentar (mantendo longe os critérios de blockbuster que o filme mercadologicamente carrega consigo) é um poder surpreendente do texto.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Outro trecho do Middle C, William Gass

"The interruption was his mother's doing. Miriam could not understand Joey's attitudes and would not try to imagine why the prospect of Debbie's baby was not a cause for rejoicing and a feeling of fulfillment, as if some significant aim in life had been realized. Begetting was so inevitable, Joey thought, it was as routine as dying, consequently it could be safely left to nature, and otherwise ignored,(...). In due course people were born, in due course they managed to walk, they learned to talk, they attended school, they got a job, partied, married, had kids, sold stuff, bought more, overate, drank to be drunk, were relieved to be regular, labored in order to loaf, lived that way a spell - its passage sometimes stealing years - coasting down due's course - while they lost their hair, sight, hearing, teeth, the use of limbs, the will to live, until, in due course and as their diseases desired, they took to bed; they laughed their last; they said good-bye to the ones they said were loved ones- they curled up in a fist of aches - said good-bye to the ones they said were closest to them - complained about their care - said good-bye to the ones who came to kiss them off, said good-bye to comfort themselves with the sight of another's going, said good-bye while the designated goer complained, complained of neglect, complained of fear, complained of pain, and disinclied going, but would go, go over, cross Jordan, nevertheless. They uttered last words that no one could understand; they curled up like a drying worm; they cried to no avail because weeping begot only weeping, wailing was anwered with wails; they repented to no one in particular; they died as someone whose loss was likely to be felt no farther than the idler's door, and dying, quite often, in debt for a cemetary plot, the service of a funeral parlor, in the pursuit of a false ideal. Joey didn't see much to interest him in any of this. It was what was done between times that fascinated him, when due course was interrupted by dream or discovery, murder or music, though wars were, he had to admit, due course to a faretheewell. And he thought, mor and more, that death, assuredly dire, was also something due."

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

de "Middle C", William H. Gass

(parágrafo de p. 52-53)

"Those who suffered the plague and survived: they suggested to Joseph Skizzen the unpleasant likelihood that Man might squeak through even a loss at Armageddon, one death per second not fast enough, and outlive the zapping of the planet, duck a fleet of meteors, hunkerbunker through a real world war with cannons going grump to salute our last breath as if horror were a ceremony, emerge to sing of bombs bursting, endure the triggers of a trillion guns amorously squeezed until every nation's ammo was quite spent, and all the private stock was fired off at the life and livestock of a neighbor, so that in battle's final silence one could hear only the crash after crash of financial houses, countless vacuum cleaners, under their own orders, sucking up official lies, contracts screaming like lettuce shredded for a salad, outcries from the crucifixion of caring borne on the wind as if in an ode, the screech of every wheel as it becomes uninvented, brief protests from dimming tubes, destimulated wires; though the slowing of most functions would go on in silence, shit merded up in the streets to be refried by aberrant microwaves, diseases coursing about and competing for victims, slowdowns coming to standstills without a sigh, until the heavy quiet of war's cease is broken by... by what? might we imagine boils bursting out of each surviving eye... the accumulated pus of perception? a burst like what? like trumpets blowing twenty centuries of pointless noise at an already deaf-eared world... with what sort of sound exactly? with a roar that rattles nails already driven in their boards, so... so that as the sound comes through their windows, houses will heave and sag into themselves, as unfastened as flesh from a corset; yet out of every heap of rubble, smoking ruin, ditch of consaguineous corpses, could creep a survivor - he was such a survivor, Joseph Skizzen, faux doctor and musician - someone born of ruin as flies are from offal; that from a cave or collection of shattered trees there might emerge a creature who could thrive on a prolonged diet of phlegm soup and his one entrails even, and in spite of every imaginable catastrophe salvage at least a remnant of his race with strength, the interest, the spunk, to fuck on, fuck on like Christinan soldiers, stiff-pricked still, with some sperm left with the ability to engender, to fuck on, so what if with one leg or a limp, fuck on, or a severed tongue, fuck on, or a blind eye, fuck on, in order to multiply, first to spread and then to gather, to confer, to wonder why, to invent, to philosophize, to accumulate, connive: to wonder, why this punishment? to wonder, why this pain? why did we - among the we's that were - survive? what was accomplished that couldn't have been realized otherwise? why were babies born to be so cruelly belabored back into the grave? who of our race betrayed our trust? what whas the cause of our bad luck? what divine plan did this disaster further? why were grandfathers tortured by the deaths they were about to sigh for? why?... but weren't we special? we few, we leftovers, without a tree to climb, we must have been set aside, saved for a moment of magnificence! to be handed the trophy, awarded the prize; because the Good Book, we would - dumb and blind - still believe in, said a remnant would be saved; because the good, the great, the wellborn and internetted, the rich, the incandescent stars, will win through that... that... that we believed, we knew, God will see to our good outcome, he will see, see to it, if he hasn't a belly full, if the liar's, the liar's beard is not on fire like Santa Claus stuck in a chimney"

domingo, 8 de setembro de 2013

A não-unidade de uma obra literária, e de repente um novo ânimo

Nem sei se vou conseguir colocar estes raciocínios de uma forma que vá fazer muito sentido, mas lendo Falling Man do Delillo eu me dei conta de quanto realmente um livro nunca existe por si só, que ainda que o objeto seja claramente demarcado por início e fim no mundo físico, seu texto se relaciona com o leitor e com o mundo de maneira bem menos estanque.

Delillo é um dos maiores autores americanos da atualidade, e ainda que no Brasil seja publicado pela Companhia das Letras e há muito tempo, não é um cara que eu vejo as pessoas discutindo com muita frequência. Várias vezes já falei dele com as pessoas como sendo a primeira vez que eles ouviam falar do cara. Ruído Branco, sabe, grande romance, etc. (certamente uma das leituras mais impactantes da minha vida, mas um pouco disso talvez tenha sido a idade...). Falling Man é o livro dele sobre o Onze de Setembro, seis anos depois do evento. 

Algum leitor que pega este como primeiro livro do Delillo para ler pode sair com a impressão que toda a estilística típica dele (os livros todos dele são meio que todos parecidos) fosse uma construção específica para lidar com a questão do Onze de Setembro, certo exagero retórico misturado com vazio humano, paranoia tecnológica e abundância meio extravagante de conceitos e discussões semi-teóricas a respeito de assuntos variados e bizarros... A forma como todo mundo é meio que parecido, ainda que ocupem vagas variadas nas hierarquias do mundo (ficando bem longe de ser um afago democrático/demagógico). Conversando com o Vinícius Castro, chegamos à descrição de "místico-tecnológico". É um cara bem estranho e sagaz.

Alguém poderia achar que toda a tensão meio frustrante do livro (diferente da tensão meio prazerosa do thrillers comerciais) seria algo que tenha vindo do evento, quando na verdade todos os livros do delillo são meio que escritos neste espírito de paranoico-órfão, o perseguido saudoso de saber o que lhe persegue. Pouco do estilo (e não incluo nisto só a estilística) é especificidade do assunto. Não é alguém naquele momento atordoado pelo impacto do ataque, é alguém sempre atordoado pelo mundo como um todo, talvez um pouco mais diante daquele momento impressionante.

(usando um exemplo nacional, é como se alguém pegasse o jeito despedaçado (ou multi-pedaçado) do Diario da Queda para falar que foi aquela a forma de abordar o assunto difícil do livro, quando o Laub vem trabalhando desse jeito há um tempo, já)

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É triste e talvez inevitável que o leitor com o tempo vá se tornando meio insensível a sua própria atividade favorita. Vários e vários e vários livros lidos, o prazer intenso do início da vida enfiado em páginas ficcionais vai se transformando um prazer familiar, o abrir de um livro se torna em uma espécie de retorno a própria casa, e ninguém chega na casa em que se chega todos os dias fazendo acrobacias de alegria. Talvez não seja tão a toa que tanta teoria e crítica literária sejam escritas em tom de desconfiança e desencantamento, o crítico com o dedo apontado em riste para o objeto que se torna como que um réu. Talvez seja porque até o crítico/teórico tenha acumulado bagagem e carreira o bastante para ser amplamente lido, ele também passou por esse desgaste dos anos. Sinto um pouco isto quando me deparo com o triste fato de ver o quão é adequada a expressão "entusiasmo controlado" para falar de um livro que estou lendo e estou gostando bastante, que um sumiço repentino e inexplicável daquele livro do universo das coisas existentes, interrompendo minha leitura, nem me causaria tanta angústia assim. A empolgação parece coisa impossível, antiga.  A leitura do primeiro e, depois, do último capítulo do Falling Man como dissipou (momentaneamente) todo esse cansaço. 

Sabendo que é terrivelmente brega colocar a coisa dessa forma, tive mesmo a impressão de estar sendo iluminado pelo talento extraordinário dele de conseguir capturar uma coisa escrota e exaustivamente explorada na mídia e no mundo em prosa literária de deixar o leitor pasmo. Papos sem fim a respeito da impossibilidade da literatura dar conta da realidade e a mera leitura daquelas páginas traz com vivacidade todo aquele acontecimento como que no dia em que aconteceu, quando os videos de então de tão vistos e repetidos só trazem hoje o enfado. O resto do livro não é do mesmo nível (seria possível?), mas as descrições do início e do fim são inesquecíveis. É talvez meio doente, mas sempre que pensar em onze de setembro agora eu penso entre outras coisas que teve alguém que conseguiu escrever o que aconteceu, e eu sei quem foi.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Algumas leituras

Reli esta semana o primeiro capítulo do Mãos de Cavalo, do Daniel Galera. Continua brilhante. Sete anos pra literatura é bem pouco tempo (olá, Camões), mas para a vida de um leitor jovem (claro, cada vez menos jovem) nem é tão pouco assim. Poucas experiências de leitura são piores do que uma releitura decepcionante, e 

Tem se tornado algo meio cool falar mal dele por conta de todo seu sucesso editorial, o que é certamente previsível, uma vez que o intelectual brasileiro já exibia características hipster antes de existir a palavra hipster (só lembrar da frase do Tom Jobim falando que o sucesso no Brasil é imperdoável), e mesmo que um lançamento ou outro dos mais recentes dele parecem contribuir um pouco para esta mini-multidão pisoteadora,  ainda acho aquele livro algo bastante incomum. Fiquei com vontade de reler, mas estou para fazer uma viagem meio longa e no momento preciso de livros demorados. 

(Tô indo levando o Gravity's Rainbow, que criminosamente (para um anglófilo fã do contemporâneo) ainda não li.)

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Falando em livros demorados, depois de alguns meses e certa insistência que só pode ser caracterizada como teimosia terminei o The Recognitions, do William Gaddis. Coisa horrível chegar ao fim de 950 páginas de um romance e se dar conta que será necessária uma segunda viagem por cada uma daquelas páginas para poder dizer algo minimamente substancioso sobre o livro. Só posso dizer que recomendo. Tem muita coisa confusa e obscura, sim, começa de um jeito, continua de outro, vira um terceiro, volta pro primeiro jeito, cria um quarto, repete o segundo, faz um outro a um ponto que você já perdeu a conta... é um bicho bem sui generis, mas também alguns trechos lindíssimos, inclusive uma expressão que por algumas horas foi título do meu romance que nunca fica pronto, "Refletindo luz de lugar nenhum".

Inclusive o post "Abre Aspas 7", em que cito da introdução do William Gass uma imagem maravilhosa de um órgão fazendo ruir uma catedral como ideal de romance é a cena final do romance do Gaddis.

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Uma das minhas primeiras reações, mesquinha e babaca, ao ouvir da existência do livro da Karen Green, o Bough Down, em que ela fala sobre o processo de luto em cima do suicídio do marido, é de que era uma aproveitadora/capitalizadora daquela desgraça, fazendo um livro em cima disso, cretina, etc. Pura estupidez, claro, primeiramente no plano monetário (já que o livro muito provavelmente não chegará às listas de best-seller) e também, mais importante, no plano do conteúdo mesmo, uma vez que quase toda boa literatura nasce de amarguras profundas, causada por um terrível evento ou pelo somatório de várias pequenas amarguras, o dilema já apresentado láááá em Aristóteles que uma desgraça transformada em arte por algum motivo redime ou pelo menos apresenta uma sensação de redenção, coisa que já é alguma coisa. O livro me chegou esta semana. É bem bonito. A parte das artes plásticas não me interessou tanto, talvez por eu ser neste assunto bem ignorante, mas algumas frases e momentos permaneceram comigo depois do livro fechado, como o médico falando pra ela "bem, ele não era tão perfeito assim pra você já que ele se matou, né?" ou "algumas almas são tão perdidas elas criam sua própria privacidade, elas não precisam de paredes", ou "não é tarefa de uma vida se tornar indestrutível". A cena inteira do policial perguntando por que ela cortou a corda em que ele estava pendurado e ela respondendo que era porque talvez, a dela indo visitar o farol com os pais dele... Não sei se é um livro que eu sairia recomendando por aí (talvez o interesse inteiro meu esteja no morto), mas que é bem escrito e bonito, é. Espero que ela esteja bem.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Paulo Scott e a Copa da Literatura Brasileira

Podem desconfiar de tudo que digo aqui, afinal, escrevi um dos textos do tal evento Copa da Literatura Brasileira. Pode-se, com provável má-vontade, resumir tudo isto que vou escrever aqui com "ele está apenas defendendo o seu", ainda que o que seria propriamente meu nisto tudo talvez não seja tão fácil de apontar.

Pré-requisitos para entender o post: saber que existe um evento chamado Copa da Literatura Brasileira, e que o Paulo Scott pediu para retirarem o livro dele, falando que é contra competições e etc. O primeiro dá pra descobrir o que é usando o google, e o segundo indo na página do Scott no Facebook. 

Preâmbulo importante 1: Habitante Irreal, romance do Scott, é um tremendo livro. Se não fosse o final um tanto apressado e estranho, seria sem dúvida um dos grandes romances da literatura brasileira (e não omito o contemporânea aqui por acaso).

Preâmbulo importante 2: Indiretamente, é devido ao próprio Paulo Scott a minha presença no evento da Copa. Quando li o romance dele, rascunhei algumas impressões (na milésima iteração da minha atividade favorita da época, o Fazer Qualquer Coisa Que Não Fosse Minha Dissertação) e enviei para o e-mail dele. Ele respondeu com atenção e entusiasmo incomuns (a maioria só responde aos meus e-mails chatonildos com uma linha ou duas de obrigado, como imagino que eu mesmo faria na situação deles), falando que eu deveria entrar em contato com cadernos culturais para escrever sobre literatura, me passando uma dúzia (sem exagero) de e-mails de contato. Dentre esses contatos estava o do Jornal Rascunho, que me aceitou para o serviço de resenhista-a-troco-de-exemplar-de-divulgação (um grande upgrade considerando meu status anterior, rabiscador-de-email-após-exemplar-comprado). Depois de fazer umas quatro ou cinco resenhas, fui chamado pela comissão para participar do evento. Além da admiração pelo ótimo romance (que, convenhamos, não é o tipo de coisa que aparece na literatura brasileira com tanta frequência) que ele fez, o Scott conta ainda com minha gratidão. Gostei muito de ser resenhista (ainda que brevemente, já que interrompi os serviços para escrever meu romance) e gostei muito de escrever esse texto pra Copa, que foi o texto crítico de minha composição que mais me deixou satisfeito, o que eu acho que mais consegui transmitir o que é Literatura para mim.

Relutei um pouquinho diante do convite de participar na Copa da Literatura. Eu já conhecia o evento de anos anteriores, e já tinha lido algumas das críticas/partidas. São de qualidade variável, mas que agrupamento neste mundo não é de qualidade variável? A coisa me parecia divertida e despretensiosa, mas, junto com Scott, a coisa da competição direta, frente-a-frente, me era incômoda. De tal modo que o texto que compus para o evento, feito há mais de um mês, abre justamente falando desta questão (em extensão exagerada, inclusive): como colocar um livro diretamente contra o outro, quando cada obra opta por si própria os parâmetros pela qual ela opera? Como comparar Machado de Assis com Guimarães Rosa, falar que falta neologismo no primeiro ou subversão bem-escondida no segundo? Falta pacto demoníaco no primeiro e falsos-cornos no segundo? Falar assim no seco que um é melhor que o outro não é uma forma meio exagerada (beirando o autoritário) de se dizer que se prefere um ao outro?

No entanto, o aspecto jocoso da coisa toda, colocado da maneira mais explícita possível (tem uma rodada de zumbis na parada, véi), a meu ver esvazia consideravelmente qualquer pretensão de objetividade. Inclusive, acho que o evento traz um pouco de humor e informalidade declarada a um campo que frequentemente se esforça para ser sempre o mais sisudo possível, a todos os momentos, talvez por tentativa de esconder a superficialidade de muito do que nele é dito. Quem nunca viu a cena de um cara tratando de botar a cara mais séria possível para dizer no fundo no fundo que não gostou do livro sem entrar em qualquer detalhe a respeito disso?

Outra coisa que me motivou a aceitar o convite é o mistério por trás da caixa de comentários desse evento: por algum motivo, talvez  por tentar juntar tudo com a coisa do futebol (onde todo mundo tem sempre uma opinião e sempre quer expressá-la), vejo nos anos anteriores que a caixa de comentários não ficam às moscas como ficam na maioria dos blogs sobre literatura, e o que aparece escrito nelas não é só um "mandou ver", "isso mesmo", etc. O pessoal aparece e opina mesmo, às vezes de maneira meio estúpida (afinal, estamos falando de internet, em que a morte de um panda na china pode fazer um cara nos comentários comentar ter vergonha de ser brasileiro), mas ainda assim é gratificante ouvir mais do que o eco da própria voz.

Interessantemente, coube a mim neste evento falar de um livro que recebeu o prêmio São Paulo de literatura e seus respectivos 200 mil reais, o vermelho amargo, do Bartolomeu Campos de Queiros. Lá na frente do exemplar do livro estava sua tarja azul anunciando o prêmio, dizendo melhor livro do ano, prêmio são paulo etc. Isto me ajudou a relativizar ainda mais (já tinha aceitado o convite) a ideia de que com o evento se impunha uma competição algo que não era competitivo. A própria ideia de prêmio literário já não seria uma espécie de aval de superioridade em relação aos não-premiados, aval que carrega ainda o peso da grana que vem junto com o título? Os tais duzentos mil reais do Premio São Paulo equivalem à vendagem de cerca de (imaginando aqui o autor recebendo 10% do valor de capa do livro) cinquenta mil cópias, número quase nunca (quase nunca meeeesmo) alcançado por qualquer livro de Literatura Séria no Brasil. O próprio Habitante Irreal, do Paulo Scott, ganhou (merecidamente) o prêmio da Biblioteca Nacional, e não os vários outros livros também inscritos pelas editoras para ganhar o prêmio. Se na copa da literatura a coisa da competição talvez fique um pouco mais absurda colocando os livros um-contra-um, diretamente, acho que a ausência de prêmio-em-dinheiro totalmente desproporcional às vendagens de literatura séria (que por si só já sobem um pouco por conta do prêmio) mais do que relativiza a ideia de que o que se faz com a copa é impor competição nas expressões de subjetividade e visões de mundo individuais que compõem a Literatura.

sábado, 13 de julho de 2013

Para que o blog não fique inteiramente às moscas, um poema que eu gostei muito

Continuing To Live (by Philip Larkin)

Continuing to live - that is, repeat 
A habit formed to get necessaries - 
Is nearly always losing, or going without. 
It varies. 

This loss of interest, hair, and enterprise - 
Ah, if the game were poker, yes, 
You might discard them, draw a full house! 
But it's chess.

And once you have walked the length of your mind, what
You command is clear as a lading-list.
Anything else must not, for you, be thought
To exist.

And what's the profit? Only that, in time,
We half-identify the blind impress
All our behavings bear, may trace it home.
But to confess,

On that green evening when our death begins,
Just what it was, is hardly satisfying,
Since it applied only to one man once,
And that one dying.

sábado, 4 de maio de 2013

Gênio não-instantâneo

É uma das burrices que com mais frequência se reinstauram em minha consciência, o fato de sempre me espantar quando me deparo com uma obra marcadamente inferior de alguém que algum dia produziu algo verdadeiramente grandioso. É talvez uma das poucas crenças adolescentes que ainda carrego comigo (foram embora "ateísmo é grandes coisa", "ser leitor assíduo é grandes coisa" e "eu sou grandes coisa"... tá, confesso que essa última não foi embora por completo), a crença de que o artista de alguma forma nasce decidido e definido, crença completamente insustentável diante da riqueza de provas contrárias oriundas da maldita empiria. 

Quando vejo que Boyhood, do Coetzee, veio apenas 5 anos antes de Youth, que Child of God, do Cormac  veio apenas seis anos antes de Suttree e The Prague Orgy, do Roth, veio menos de uma década antes do Sabbath Theater (sendo que ele tinha escrito livros ótimos antes mesmo do Prague Orgy), sempre parece que há algo de errado. Ou, para  cairmos em terras nacionais, que o Breve História do Espírito, do Sérgio Sant'Anna, é de apenas três anos antes d'O Monstro.

Todo meu aparato racional reconhece que muito do ato de escrever é uma questão de experiência (não só de vida, e talvez nem mesmo primeiramente de vida) , de técnica, de aprimoramento, de paciência e diligência. Mas a superioridade acachapante de certas obras carrega consigo uma certeza meio besta de que elas são feitas de outra coisa que não a mesma das obras inferiores, que elas saíram de outro espírito ou outra realidade ou sei lá (minha disposição de ficar completamente boquiaberto diante de certas realizações estéticas não foi das coisas adolescentes que larguei pra trás). Daí a dissonância da disparidade, ainda mais  quando uma coisa claramente nasceu de outra (Child of god me parece muito um rascunho de Suttree, Boyhood e Youth são da mesma trilogia, etc).

Talvez esta sensação de superioridade acachapante (que nem mesmo não tem reconhecimento universal, nem em leitores de boa vontade ou de aparente afinidade estética... tem quem gosta do Blood Meridian e acha o Suttree chatérrimo) seja o que me devolva à ideia meio adolescente de genialidade intocável e inalcançável, quando o percurso do próprio autor por meio de seus livros menores mostra que isto foi algo alcançado, provavelmente a muito esforço e custo.

O engraçado é que eu deveria na verdade sentir alívio ou alegria diante desta realização, afinal, uma das crenças adolescentes que abandonei é que meu primeiro livro é grandes coisa. Destas experiências eu provavelmente deveria tirar ânimo de que talvez algum dia eu consiga construir uma contribuição de peso semelhante ao das obras que eu tanto admiro. Mas daí eu provavelmente precisaria de mais paciência, de escrever um primeiro romance que conscientemente fosse um primeiro romance, um segundo romance que fosse um segundo romance (Suttree foi o quarto livro McCarthy, que até que chegou cedo em sua expressão máxima), e não me deparasse com desespero quase toda hora com a ambição desmesurada do rascunho no qual estou trabalhando (que atualmente se encontra na página 126 e ainda muito longe do final).

Ainda que eu goste bem mais da música do Beethoven, que aos poucos foi encontrando sua grandeza, é a  de Mozart compondo pecinhas bonitinhas aos cinco anos a imagem que parece ainda prevalecer como a do artista genial, aquele cara que apareceu pronto e imediatamente diferente.

(post motivado pela leitura de "Música Anterior", do Michel Laub, livro em que só vi o valor desse elemento motivacional mencionado acima. Não estou dizendo que o Laub esteja no nível do Cormac, Coetzee, Roth, Sant'Anna, mas que o Diário da Queda não está tão longe do Desonra, do Mancha Humana, do Crime Delicado, não está mesmo)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Uma última resenha

http://rascunho.gazetadopovo.com.br/brutalidade-lirica/

Estou dando um tempo do serviço de resenhista para escrever meu romance.
Das cinco resenhas, a única positiva. Talvez para terminar a coisa em uma nota de otimismo.

terça-feira, 19 de março de 2013

Abre aspas 7

"We shall live for no reason. Then die and be done with it. What a recognition! what shall save us? Only the knowledge that we have lived without illusion, not excluding the illusion that something will save us. For the temple of our pretenses shall come down at the end in a murderous fall of its stones (just as it does at the conclusion of this novel), not from the brute blind strength of a Samson shoving great pillars out of plumb, from an art, a music, realized in the determined performance of an organ whose stops have been pulled out to play, at last, with a reckless disregard for the risks its reverberations run it, till every stone in the vicinity trembles." Introdução do William Gass ao romance The Recognitions, do William Gaddis.

(Ainda estou escrevendo o romance, o blog permanece em pausa)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Solipsismo em Jimmy Corrigan, do Chris Ware

http://www.gelbc.com.br/pdf_jornada_2012/jornada_2012_05.pdf

Texto acadêmico meu (provavelmente meu último). É sobre Jimmy Corrigan, do Chris Ware. Me empolguei um pouco no meio e acho que deve ter ficado um pouco "preachy", mas paciência.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Dissertação

Imagino que exista algum outro formato de postagem que torne o texto mais legível, mas ando meio sem tempo (ou disposição) de mexer muito com isto aqui e como devo passar um tempo distante do blog (vou me afundar na escrita de meu romance) achei que talvez servisse como um bônus ou mini-até-breve.

(nem sei se as notas de pé de página vão aparecer direito, estou indo só no control c control v)

Se alguém quiser o arquivo, pode me mandar um e-mail: breno_k arroba yahoo ponto com (sem br)

- Entreguei o texto em agosto (eu acho, não lembro de datas com precisão) mas parece que demora UM ANO para a ufmg mandar o diploma e botar o texto online.

- Não tive tempo (dado o cronograma) de mandar para uma revisão profissional do texto. Se você achar algum erro de revisão, não precisa avisar, se isto algum dia sair em livro vai ter alguém sendo pago para procurar erro de digitação, de revisão, etc.

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Minha dissertação é sobre como a literatura brasileira durante a ditadura ficou viciada em denúncia ultrajada e com o fim da ditadura acabou o assunto principal e passamos duas décadas (anos 80 e 90) praticamente sem produção de qualidade. A meu ver, este engajamento literário e seu fracasso (ninguém vai dizer que a ditadura acabou por causa de um romance, ou de um filme, ou etc) foi um verdadeiro ponto de quebra na literatura brasileira, que pode ser dividida (em seu "eixo principal") como antes e depois da ditadura. Por isto  tanto autor jovem no Brasil que não se identifica com a literatura brasileira como um todo e tanto crítico velho que fala mal da produção nova por não seguir os "caminhos narrativos" já consagrados.

Existe o resumo acadêmico, formal, da coisa, mas o melhor resumo é esta citação do Sérgio Sant'Anna, do Um Romance de Geração:


“talvez não tenha havido uma época tão fértil, pelo menos quantitativamente, quanto esses quinze anos pós 64 (...) Mas por que essa fertilidade, ponto de interrogação? Não seria porque os escritores (...) teriam encontrado na ditadura um excelente ponto de referência, ponto de interrogação e parágrafo? (...) Tínhamos algo contra o que lutar, sem muito risco, e os melhores motivos, ponto. (...) a relação entre a ditadura e a literatura talvez tenha sido como um jogo de gato e rato, ponto. Sem o gato o jogo não poderia continuar, para a tristeza do rato. (...) Nós talvez passemos a ser conhecidos como os “Órfãos da Ditadura” (...) quantas pessoas eu vi pelos bares falando de Herzog como quem fala de um artista famoso (...) entre o Wladimir Herzog que foi morto numa cela do Exército e aquele que aparecia em nossos livros havia uma diferença de grau e substância, ponto. Este último era apenas o personagem que nós, os escritores, precisávamos para manter acesa a “nossa chama”, a “nossa fogueira”, o JOGO, em maiúsculas”. (1981, p. 65)


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Eis:


SUMÁRIO

Introdução–10

PRIMEIRA PARTE –Pressupostos: Um sistema, um histórico: uma herança–20
Capítulo 1 – A literatura como sistema -20
Capítulo 2 – Um histórico: Nacionalismo(o lugar e o dever do escritor) – 30
2.1 –Arcadismo: um início de consciência do lugar de fala– 35
2.2 – Romantismo: o nacionalismo protagonista– 37
2.2.1 – O Caso Machado: Instinto de Literatura.– 49
2.3 – Belle Époque - 55
2.4 – Os Modernismos - 61
Capítulo 3 – Por Que tanto Brasil?,ou a obsessão de um sistema.– 71

SEGUNDA PARTE– Ditadura e cultura– 82
Capítulo 4 – Ponto de partida – 82
4.1 – A cultura e a literatura nos anos ditatoriais – 83
4.2 – Antonio Callado – 92
Capítulo 5 – Da censura –97
Capítulo 6 –Problemáticas da resistência anti-ditadura– 114
6.1 – O “vazio cultural” e a solução mágica– 114
6.2 – Gavetas vazias e a necessidade do vilão – 118
Capítulo 7 – Dois romances, dois caminhos: A Festa e Confissões de Ralfo–140
Capítulo 8 –O ápice e fim do empenho nacionalista na literatura brasileira –175
8.1–Armadilhas do nacionalismo - 175
8.2 Consequências: literatura brasileira de ontem, literatura brasileira de hoje- 184

Conclusão - 198

Bibliografia - 205


“Achar que uma coisa é ruim, não é duvidar dela, mas afirmá-la”
Machado de Assis, em Crônica de despedida de “A Semana”, 1897


“Preciso de ti. Sem ti, como acreditar que sem ti poderia começar uma vida nova? Acreditar que sem ti poderia renascer, que só tu impedes que eu possa renascer é muito importante para mim...; és o meu fascismo!”
Bolor, romance do português Augusto Abelaira, 1968

“Antes era mais fácil – sim, porque era
Mais difícil, havia mais em jogo,
E o tempo todo se jogava à vera.
Precisamente: mais difícil, logo

Mais fácil. Porque sempre se sabia
 de que lado se estava- havia lados,
então. E a certeza de que algum dia
tudo teria um significado.

E nós seríamos os responsáveis
por dar nomes aos bois. Havia bois
a nomear, então. Coisas palpáveis.
Tudo teria solução depois.
(...)”
“Pós”, de Paulo Henriques Britto, 2012.