segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sobre Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron

O cadáver de um gato pode ser apreendido tanto como a coisa mais distante quanto a coisa mais próxima que se pode ter de um gato. A morte é tanto a definição quanto a anulação da vida, todo ser vivo é mortal. A escrita consagra e encerra os assuntos por ela discutidos, por mais que se faça um parágrafo final protocolar convidando a discussões posteriores. Uma membrana cria a separação e mantém o contato entre duas substâncias diferentes, vizinhas.

O fascínio racionalista do ser humano encontra em poucas outras coisas além do quebra-cabeça um exercício que esteja à altura de seus delírios de dominação. Milhares de pequenos pedaços que por si só dizem nada ou quase nada, um pouco de uma curva de um queixo erguido para retrato demorado, o espaço escuro entre uma maçã e uma pera em cima de uma mesa de um anônimo, um branco indefinido que pode ser tanto parede quanto paisagem, mas com sagacidade e paciência (os mais pacientes afirmariam que a paciência seria a principal inteligência, ignorando a rima irritante) é possível recuperar depois de várias horas a totalidade da imagem e do sentido. É a capacidade humana concentrada em seu ímpeto incansável de domar o universo: podemos colocar o mundo sob nosso controle, se nos esforçarmos no sentido certo.

O universo, sim, cede alguns centímetros, talvez apenas para nos entreter, ou se entreter, ou, muito mais provável, indiferentemente, sabendo ou não que seu principal, o improvável, o irrazoável, o caos, não está a alcance do nosso controle. As questões que ficam sem solução não por falta de inteligência, ou esforço, ou recursos, e sim apenas por não ser o tipo de questão que tenha resposta, ou resposta recuperável, essas não são alvo de discussão ou deliberação razoável, está nas mãos de um Deus que cada vez mais convence menos pessoas de sua existência.

O cerne principal do Noite dentro da Noite me parece ser esse. Uma subversão profunda e estrutural das expectativas da lisura de um entendimento pleno.  Narrativas de origem pessoal, de resistência política, de espionagem, como quase todas os outros gêneros, partem do princípio de um movimento da ignorância para o conhecimento, do errado para o certo. A vida, no entanto, não propicia esse movimento com a naturalidade das narrativas, e talvez seja essa a justificativa da existência dessas histórias, a capacidade que têm de em parte acalmar temporariamente esses anseios sem correspondência. O alemão que apesar de sua aparente vida de homem comum NA VERDADE trabalha para o nazismo, o garoto que apesar de ter sido criado para tomar como normal todas as injustiças sociais de seu mundo NA VERDADE entende o sistema capitalista e resolve combatê-lo, o homem que segue sua vida estudantil e profissional dentro das expectativas NA VERDADE precisaria desvendar vários segredos a respeito de seu passado para recuperar seu Eu Legítimo. A normalidade anterior, errada, na verdade seria suplantada apenas para a substituição de outra, talvez mais correta ou bonita, mas ainda assim dotada de uma estabilidade de entendimento perfeito.

O instrumento que temos a nossa disposição para construir uma imagem de mundo que nos possibilita a sobrevivência, essa víscera em forma de noz (em uma das vívidas e brilhantes expressões do romance), até consegue enganar por longos períodos no que diz respeito sua capacidade de captar a realidade de maneira completa. Afinal, é o cérebro que conta e ouve a história, o enganador e o enganado. É ele que rege e depois entende por normal e razoável o mundo que o ser humano criou para sua própria espécie. Que produz esquecimentos aparentemente sem qualquer critério, a ponto de esquecermos o que esquecemos. Dependurado por inteiro nesse órgão frágil, falho, o mundo na verdade é bem mais movediço do que pode parecer.

O romance, claro, evoca temas condizentes com essa estrutura instável para sustentar sua complexa construção de realidade. É o que requer a empreitada literária, um ponto fixo para determinar as movimentações violentas do resto do livro. Um acidente em que o garoto bate a cabeça, a epilepsia, o trauma, as torturas. O estabelecimento de um estrato onírico subjacente aos acontecimentos, uma liberdade unidirecional, só para baixo, mantém um tom de um pesadelo permanente. A ambientação do pântano, o terreno em que nem mesmo o chão é confiável, sendo alternadamente terra ou lama ou água, ou barranco de queda perigosa, numa umidade em que o próprio ar parece água, nunca vem a ser descritivamente substituída por outras quando a história carrega os personagens para outros lugares como o Rio de Janeiro, ou Buenos Aires; a única exceção vívida sendo a surrealista neve vermelha de Medianeira. Os porões de tortura, literais ou figurativos (a violência a céu aberto, testemunhas caladas pelo medo da morte ou pela morte), suscitam também outro grau de incerteza, a das confissões arrancadas a alicate, a princípio entendidas como verdades absolutas desenterradas que em vez disso são qualquer fala que faça com que a tortura acabe, diferentes sessões com um mesmo aprisionado revelando verdades diferentes, desesperadas, sondagens para ver quais seriam as palavras mágicas para qualquer libertação. A única palavra máxima para tratar o momento, no entanto, seria inútil: azar. Azar de nascer onde ter nascido, de ter desenvolvido alguma consciência do absurdo do mundo e, sobretudo, azar de ter sido capturado. Azar de se ver cercado ou refém dessa criatura mesquinha, violenta e cruel que é o ser humano.

Com essas complicadas bases de realidade fundando o romance, é permitido ao lirismo espesso, barroco e apoteótico da narrativa uma constância maximalista a princípio insustentável, em que o eventual fraquejamento de um ou outro exagero que não cabe (diferente de todos os outros exageros que cabem e carregam mais adiante a força do romance) não compromete um equilíbrio sempre posto em pontos de desequilíbrio, e tampouco cansa a dicção maximalista, uma vez que ela não opera em uma normalidade que busca qualquer coisa próxima com o cotidiano. É um universo pútrido, tanto no aspecto físico e fisiológico quanto no moral-histórico, a ambientação da ditadura inteligentemente desenvolvida não como um passado a-ser–compreendido-para-ser-superado e sim como momento de mero desnudamento das forças sempre presentes na sociedade brasileira, ou mesmo latino-americana: levando em consideração a atuação das polícias da maior parte do país, nas suas tentativas desastrosas de conter a violência urbana de um dos países mais perigosos do planeta, o slogan “tortura nunca mais” foi criado e saudado como superação em uma sociedade em que se tortura ainda mais do que na época ditatorial.

O lirismo do livro é um da textura, essa característica de descrição bem mais difícil de apreender do que linha ou cor, o que mais se perde de um quadro ao vê-lo em reprodução do que na vida real (a representação correspondendo a muito menos do que o representado). Característica mais pertencente ao tátil do que ao visual, uma espécie de sensação cega. Que exige, ou valoriza, a presença, a experiência que não seja a partir do reportado. E mesmo o contato direto não é suficiente para estabelecer certezas, servindo apenas de garantida de uma não-diminuição dos sucessivos impactos, para os quais é impossível qualquer tipo de preparo mínimo.

Fica claro logo nas primeiras páginas que o romance não quer menos do que se inscrever na minguada listagem de obras primas da literatura brasileira, Cronica da casa assassinada, Grande sertão: veredas, Dom casmurro, A hora da estrela, etc. Todos os xingamentos externos naturais a essa ambição provavelmente já foram pronunciados, provavelmente de antemão, e serão repetidos por muito tempo ainda, como pretensioso, artificioso, metido, “se acha demais”, etc, assim como já foram arremessados contra os livros de lugar já assegurado no cânone. O erro do autor, nessa visão de ódio automático ao contemporâneo, é querer se igualar aos gigantes, como se alguém alcançasse qualquer coisa extraordinária sem antes mirar alto, e o erro fosse vergonhoso a ponto de invalidar a tentativa. Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron, em toda sua radical originalidade, mira altíssimo, em um alvo que a gente só descobre que existia por ter sido acertado. É um romance extraordinário, grandioso, um monumento.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Primeira página e meia

Um pedaço da ficção em que venho trabalhando, a primeira página e meia. Acho que estabelece bem o tom da história:

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No tampo da baia, a vibração. Uma pausa, breve, de criar uma esperança, e depois de novo, vibrando. Não era uma mensagem, era ligação. Claro, ela não era de mensagens, ela era de ligar, fazer o celular tocar e tocar. A espera por resposta seria inadmissível, mesmo o instantâneo não era rápido o bastante, e devia já estar se incomodando com a demora, em leve xingamento sobre como as pessoas conseguem ser tão irresponsáveis, esquecerem seus aparelhos no silencioso. Antes fosse esquecimento.
Não, não precisou esticar o pescoço para poder ler na tela do aparelho que deveria ter ficado dentro da bolsa, esquecido, e não ali, gemendo seu vibrar contra a madeira prensada de cor clara e vagamente agradável da mobília de seu trabalho. Outra vibração, insistindo. Sentiu o olhar da colega ao lado em pergunta, como se tivesse o direito de perguntar qualquer coisa, você não vai atender isso aí não.
Não. Já não bastava aquela noite que estava para perder, bem na beira do fim de semana que chegava sempre com ares de finalmente, precisava perder também sua paz agora da tarde, ou o que restava dela ante a expectativa do evento por vir. O sorriso fotogênico de sua mãe com seus óculos elegantes emoldurando os olhos de um azul que ela não havia herdado, a tela acesa projetando para ninguém e o teto aquele rosto e nome, insistentes, vibrando. A tela se apagou com o fim da chamada, mas já sabia que seria questão de segundos até que recomeçasse.
Não tinha como ser diferente. De novo a vibração, aquela iluminação inútil, o desgaste. Como se nunca pudesse sair de perto, descer ao restaurante do tribunal para tomar um café que não fosse o de licitação disponível nas garrafas térmicas velhas e encardidas que sempre vazavam pelas laterais respingando na parte externa dos copinhos descartáveis, ir ao banheiro com aquele cheiro forte de detergente para esconder o de urina sem querer contaminar o telefone com todas as bactérias resistentes às limpezas matinais, ir à sala da chefia para ter uma conversa mais demorada que não fosse sujeita a interrupções das mais aleatórias e inúteis, barulho de mensagem às vezes só propaganda oferecendo empréstimo para milhares de números vazados ou vendidos usando até a flexão de gênero errada, não importa, ainda conseguiam seus trouxas (palavra aliás unisex, nada mais justo). É dívida, perguntou a colega ao lado, sorrindo da própria piadinha.
Não, é minha mãe, vai ter jantar hoje na casa dela, com meu irmão e o marido dele. E você não vai atender? Ela não respondeu à colega, que emendou ainda com um vai que ela precisa que você compre alguma coisa pra levar. Dicas de convivência vindas de alguém que não conhece a pessoa sendo discutida, sempre muito úteis. Óbvio que não faltava nada para o jantar, nunca faltaria. Estaria tudo comprado desde pelo menos terça-feira, preparado desde ontem, exceto o precisava ser fresco, que estaria sendo preparado nesse momento ou até mais tarde um pouco. Qualquer parafuso fora do lugar seria corrigido ou eliminado muito antes de qualquer pedido por ajuda, salvo em caso de incêndio.
E não, a ligação estava vindo do número fixo, quanto a isso estava tudo certo.
Aliás, por que afinal precisaria ser numa sexta feira, a última aula que ela dava era na quinta à tarde, poderia ter marcado na quinta. Não sabia das aulas do papai naquele semestre, mas sem dúvida seria uma informação irrelevante.
Desistiu, e pegou o aparelho.
– Por que tanta demora? – antes mesmo de um alô.
Hoje tá bem movimentado aqui, mãe. Uma mentira que ela sabia que não convenceria ninguém, mas a incredulidade foi bem absorvida pelo do breve silêncio que seguiu sua desculpa.
– Bem, tanto faz. Eu queria te pedir para você chegar um pouquinho mais cedo hoje, preciso da sua ajuda com uma coisa.

Ai, mãe, já tava combinado tudo com a babá, o horário, ela só tem o carro dos pais a partir das sete e meia.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A análise da sexta-feira

Aviso: spoiler do livro novo do Laub, o tribunal da quinta feira, em um nível última-página mesmo. Discuto questões do livro tomando como pressuposto o conhecimento da história toda, isto é, não me dou o trabalho de apresentar as situações a serem analisadas.

            Don Delillo, em seu romanção Submundo, elege o World Trade Center como metáfora perfeita para a segunda metade do século XX vivida nos Estados Unidos: é tanta exuberância que o pessoal vai lá e constrói não um arranha-céu e sim dois, um a cópia do outro, do lado do outro. O livro foi publicado em 1997. É daquele tipo de coisa que até o sujeito mais politicamente libertário do mundo ia achar razoável que a CIA espionasse o cara. Em 1992 ele também previu em seu romance Mao II que com o fim da guerra fria as cartas da geopolítica seriam dadas pelo terrorismo. Como todos sabem, nossa literatura não é tão universal quanto a americana (não temos PIB per capita o bastante para isso), e assim cabe a nós previsões bem menos grandiosas: o primeiro comentário que vi nas redes sociais a respeito do livro do Laub (que não fosse as divulgações editoriais/jornalísticas do tipo “em novo livro, Michel Laub discute...”) se deu na forma exata em que o escândalo narrado em suas páginas é inaugurado para discussão pública. Um post vago, curto, que é seguido por um comentário pedindo especificidades e a pessoa responsável pelo ato de vaguebooking dando a resposta da charada de imediato.
            Só é possível imaginar que a resenhista-express do romance em rede social não tenha lido o romance e sem querer tenha dado ao Laub um mínimo de mérito que lhe seja devido, o de saber em detalhes como que se dá esse fenômeno que o livro pretende discutir, o mimimi de macho que se diz oprimido ou a prática linchamento online. Claro, não que a concessão desse mínimo seja minimamente garantida em discussões dessa natureza, nessa luta meio fácil contra os fascistas (todos podem e devem participar, é tudo claramente delineado em bem e mal, a pauta disponível a ser reaberta todos os dias) é sempre péssima estratégia ceder qualquer centímetro de território.
            O que me incomodou no livro do Laub, na verdade, foi a coisa da AIDS. Mas antes disso cabe discutir o que há de ser mais discutido sobre o livro: explicito aqui pros que não entenderam ainda via entrelinhas que estou do lado anti-linchamento e não anti-mimimi. Não que reputações devam sempre ser mantidas ilesas a partir de erros cometidos, que certos atos merecem ser trazidos à tona para exposição e discussão, mas acho que de fato existe uma gana ensandecida em muitos de participar do justiçamento da vez, a cooptação imediata de acontecimentos particulares por narrativas sociais maiores, mesmo que corretas, antes de se ouvir o outro lado ou  pelo menos terceiros que poderiam opinar, nesse mínimo resguardo que a sociedade civilizada conseguiu de construir algo assemelhado a justiça. Dar esse espaço é dar espaço ao Inimigo, que, se pudesse, pisotearia em todos nós o tempo inteiro; nosso grito de guerra é nossa defesa e nosso ataque para que isso possa deixar de acontecer. Como vivemos em uma sociedade machista (e é difícil imaginar que alguém de inteligência mínima vá discordar disso), e a luta se impõe como importantíssima, toda denúncia de machismo tende a reverberar como verdadeira, em seus mínimos detalhes, sem que nada da desavença possa ser enquadrada como mal-entendido ou mesmo interpretação enviesada por animosidade. Quanto mais gritarmos, mais avançaremos na causa por uma sociedade mais igualitária e etc, cabendo sempre acreditar em toda denúncia, repetir todas as palavras de ordem que cabem à história ainda sendo revelada; caso contrário, você é parte do problema, e não da solução. Quem pede calma não pede nada, ou quer que tudo continue como está.
A medida do que constitui justiça é, com a exceção de casos monetários, sempre arbitrária; quanto vale em dinheiro ou tempo um ato de dano moral, ou mesmo corporal? O acerto perfeito é impossível de se encontrar, o que talvez leva alguns a acreditar que o exagero não existe. Foi possível encontrar mesmo em macacos um instinto de indignação a respeito do que é justo e não justo (um experimento já clássico em que para macacos diferentes se entregava recompensas diferentes pela mesma tarefa, o prejudicado sempre reclamando, desprezando seu prêmio fajuto), e ainda assim acredita-se que a noção de equanimidade seria das capacidades mais altivas e sofisticadas do ser humano. Como se não houvesse impulso ou afã de conseguir controlar um mínimo o caos da existência, aproveitar ao máximo, sem qualquer medida, aquela oportunidade de produzir um exemplo. A realidade, no entanto, geralmente é bem mais complicada do que um bom exemplo deve ser.
É talvez a lição mais interessante que pude tirar do Desonra, do Coetzee, demorando algumas releituras a tomar nota. O protagonista, em sua arrogância de sabido, disserta várias vezes a respeito do arquétipo do bode expiatório. Um animal é colocado para o sacrifício para expurgar todos os males da comunidade, sendo esse comportamento verificável em várias sociedades humanas. É difícil não ver isso na fúria das pessoas contra acusados de qualquer coisa, principalmente da transgressão-tabu do zeitgeist: não é só aquele crime que está produzindo aquela fúria, e sim tudo que há de errado (ou genericamente mal) no mundo, projetado no criminoso. Não é a pessoa, e nem mesmo o crime, e sim o Mal inteiro sendo malhado ali. Daí a grandiosa cena do julgamento do protagonista de seu cargo de professorzinho na Africa do Sul, o que deve ser o foda-se mais bem composto de toda a literatura, sua indisposição em participar daquele circo institucional, que priorizava o que toda instituição sempre prioriza, sua própria reputação. Ele de fato estava sendo usado pro sacrifício, para dar as mostras esgarçadas de um progresso na verdade intangível. Isso tudo, no entanto, não quer dizer que ele não seja de fato culpado: a desmedida de quem corrige não torna ninguém inocente. E o fato do culpado de fato ser culpado não impede que outra injustiça esteja sendo cometida.
É uma coisa até curiosamente desconversada pela conclusão do livro, a surpresa final, que é o que achei mais marcante no romance e que discutirei daqui a pouquinho. Para além da invasão de privacidade feita pela ex-esposa em entrar no email de outra pessoa, outra pessoa que sequer divide mais sua vida com ela, está a exposição de dois terceiros, uma garota de vinte anos que, sim, realmente teve relações com um homem casado, mas que está no início de uma carreira que pode de ser muito prejudicada pela exposição, e o amigo, cujo único crime a ser exposto para o mundo foi a forma de fazer piada via mensagem particular, sua forma de lidar com o que a vida lhe reservou (fazer piada de si mesmo, naquela máxima de que rir de algo que te mete medo faz com que você tenha menos medo). Se o caso exposto haveria de servir para muitos como exemplo da luta para tornar o mundo menos machista, também serviria de lenha pra fogueira dos infernos que se reserva no além-morte (ou mesmo em vida, para os que se julgam ungidos dessa missão) para homossexuais, em lutas que são delineadas em outros círculos (quadrangulares, pentecostais)  bem diferentes de discussão de redes sociais. Cada lado, inclusive o dos machistas e dos homofóbicos, consegue encontrar seus respectivos culpados no escândalo do romance, uma das ótimas sacadas da trama.
A sacada de base mais genial do livro, no entanto, foi a de situar a discussão inteira no mundo profissional da publicidade, ou pelo menos ter como seu meio de expressão as palavras de um publicitário. A atuação em redes sociais do adulto comum (e provavelmente também a dos adolescentes) é a de publicitário de si mesmo, fazendo todos os dias ou quase todos o login em nossa plataforma de relações públicas para falarmos que está tudo bem, que estamos indo muito muito bem; os que falam que estão mal ou que está tudo errado no geral aproveitam a oportunidade para pavonear o quão bem eles conseguem expressar como as coisas estão mal. Até quem diz a verdade está se vendendo como o cara que diz a verdade: não há escapatória, todos as vias e palavras estão afetadas pelo meio. É uma plataforma para se esculpir como perfeição, deixando de lado tudo que é desagradável e o que não cabe. O risco principal, além de uma vida em paranoia cercado de perfeitos gênios-em-tudo, é de acabar se acreditando naquela imagem artificial, sacrificando tudo que fica no caminho. Não tenho dúvidas que a ex-esposa acreditava no próprio blábláblá de que estava dando uma oportunidade ao protagonista de amadurecimento; em público, sim, sob todos os xingamentos imagináveis, melhor lugar pra refletir não há.
O protagonista reconhece o próprio erro, como não poderia deixar de fazer, em uma maneira meio em passant; sua preocupação principal, claro, está em sua sobrevivência mental mais básica, e não em pedir desculpas repetidamente para quem vai nunca cogitaria se sujar em pensar em ouvir. Sua imaturidade, principalmente em casar com uma mulher que parece que só evidenciava incompatibilidades fundamentais de personalidade, inclusive no campo sexual, explode da pior forma possível, e essa reconstrução passa a ter de ser feita publicamente porque foi para aí que foi arrastada, diante de gente para as quais ele é só um nome, ou arquétipo.
A coisa da AIDS, contudo, me soou estranha, no início. Tenho bastante aversão a metáforas a respeito de doenças, por histórico próprio de minha família; as diversas formas de finitude e suas imprevisibilidades são pra mim o indicativo mais distinto que podemos ter que estamos sob o jugo de forças aleatórias e insondáveis do universo. O narrador presta seu tributo ao clichê da questão, de todo mundo desse meio intelectual que já leu o livrinho ótimo da Sontag sobre o assunto, a tuberculose sendo poética no século dezenove, o câncer sendo rancoroso no século XX, mas o negócio ficou meio entalado mesmo assim, parecendo de início como único defeito de um livro que de tão bem feito chega a causar espanto, tendo em vista o quão recente é seu assunto principal.
O twist no aproximar do final da narrativa me pareceu uma forçada de barra na dramaticidade que já estava mais que aguçada o bastante no decorrer do livro. Para além da repetição básica da técnica do trauma arcaico anteriormente vista em o Diário da Queda (o pessoal deixando o menino cair no livro anterior, e no novo Walter deixando a travesti ser espancada) e a agressividade toda dos comentários, o livro já estava um tanto carregado, não precisando daquela dosagem a mais, e a ambiguidade do final me soando um tanto desequilibrada: se o resultado do teste fosse negativo, para que tanta tensão?
Nas páginas que provavelmente serão as mais finamente repenteadas da literatura brasileira recente, a questão é colocada em aberto, mas a mera existência da questão faria com que um dos possíveis resultados soasse improvável: se fosse negativo, para que tanto crescendo e suspense? Soa a princípio um pouco fajuto. A grande decisão que a garota deveria tomar só seria grande se fosse positivo. Talvez fosse uma questão de decidir em de fato construir uma vida ao lado dele, uma rejeição definitiva da possibilidade de se pintar como vítima da situação inteira e sair pelo caminho mais fácil, um pacto real e definitivo com o narrador. E todo aquele papo anterior sobre AIDS, todos aqueles detalhes, seriam meio que à toa? A situação por si só do amigo e o vazamento das mensagens dariam mérito a no máximo metade do espaço que foi gasto discutindo especificidades. A dúvida inteira, ainda, dá um eco meio bizarro para a conversa-zoeira entre os amigos, de decidir infectar a garota, ganhando uma literalidade quase que de mau-gosto.
Pensando um pouco mais, no entanto, não seria isso o que metaforicamente um relacionamento amoroso profundo acarreta? De certa maneira, quando amamos e temos nesse amor o convívio entranhado de subjetividades distintas ocorre certo contágio mútuo (ainda que parcial) de personalidades, a forma como o outro parece entrar em nossa pessoa? Mesmo nossos pensamentos mais particulares, a pessoa aparece dando pitacos imaginários, pensamos sem esforço em como o outro reagiria diante de alguma coisa nova que nos deparamos, ficando acompanhados mesmos quando estamos sozinhos. Não daria para entender o período de superação de um amor perdido como uma espécie de desintoxicação daquela pessoa, de nossa subjetividade aprender a viver sem a substância fornecida pela outra subjetividade? Nesse sentido, depois de digerir o livro por algumas horas, pude entender melhor essa possibilidade do final do livro, até que me ocorreu outro caminho, talvez mais engenhoso.
A confusão de datas relativas a Walter pode ser falsa, ou falseada. Ele talvez soubesse que o amigo teria se infectado somente após o contato com a ex-esposa (contato que talvez nem tenha existido).  Ela não saberia da doença do amigo? Teria ficado calada por esse tempo inteiro? (não lembro desse detalhe, esse texto conta com uma só leitura do livro). Os dois teriam ficado os quatro anos do casamento sem qualquer sintoma? Parece possível, mas um pouco improvável. Seria eu o único a sentir uma mudança na natureza dos acontecimentos da narrativa, nessa reta última, em que de repente o encadeamento de vários acontecimentos super específicos e intricados de repente se mostra como decisivo? Tudo deslizava num vai-e-volta de ambientação complexa, um andamento titubeante, até que de repente uma máquina de algumas engrenagens afiadas se revela como fundamental: plot twist numa história que subsiste de recuperar/ruminar um passado complexo, dissipado.

Assim, esse caminho que me aparece como possível, o que o protagonista apresenta agora em público como conclusão de sua defesa poderia ser, na verdade, nas entrelinhas, com o fim em aberto que de outra forma me parece um pouco artificioso e literário demais (eterno risco das narrativas de primeira pessoa), uma espécie de reivindicação possível daquilo que eles, o narrador e sua namorada, teriam perdido com essa exposição pública. Da mesma forma como o jeito semi-BDSM que os dois consensualmente transavam e gozavam juntos não dizia respeito a ninguém que não estivesse envolvido diretamente no ato, pois sabemos que não era só o adultério o escândalo, a resposta daquela pergunta-bomba sendo só deles seria uma forma dos dois terem de novo um mundo próprio, privativo, singular, que quem fosse de fora poderia apenas especular de forma inútil e infinita a respeito dos detalhes, em parâmetros que eles pudessem ter algum controle, uma espécie de retorno distorcido à forma como as coisas já foram e deviam ser.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Ozick traduzida (trecho de conto)

Traduçãozinha rápida, pedaço de um conto ótimo que li ontem:

Aos vinte ele havia suportado a emoção aturdida de alguém que tem a sensação que foi separado para aspiração, para beleza, para a reverência, para alguma particularidade ainda não descoberta. Aos trinta ele acreditou que tudo aquilo tinha sido invencionice de sua imaginação de menino (exasperação ante o envelhecer não é em qualquer momento mais aguda e melancólica que aos trinta), mas ele ainda se maravilhava com suas energias, ele sabia que tinha um talento vulgar para a compaixão assim como, digamos, Sophie tinha talento, igualmente vulgar, para copiar paisagens; ele se viu, na verdade, como uma praça aberta, já bastante pisoteada, esperando ser tomada por uma conquista, por uma invasão de particularidades, por aquele raspar propositado que marcaria os azulejos como um lugar onde claramente algo aconteceu. Aos quarenta ele era ainda sem uma história - suas irmãs estavam tendo seus últimos bebês, seu pai seus primeiros derrames - e ele se tornou culpado e cínico a respeito de sua própria natureza, e começou a desprezar a si mesmo por ter colocado sua fé na possibilidade de um evento significativo, milagroso.
- Cynthia Ozick, A esposa do médico

[At twenty he had endured the stunned emotion of one who senses that he has been singled out for aspiration, for beauty, for awe, for some particularity not yet disclosed. At thirty he believed all that had been a contrivance of his boy's imagination (exasperation over growing old is at no time more acute or melancholy than at thirty), but he was still delighted by his energies, he knew he had a vulgar talent for compassion just as, say, Sophie had a talent, equally vulgar, for copying landscapes; he saw himself,  in fact, as an  open  plaza, already well-trodden, waiting to  be  overcome by  a conquest, by an invasion of particularities, by those purposeful scrapings that  would  mark  the  tiles as  a  place  where  plainly something has happened. At forty he was still without a history - his sisters were having their last babies, his father his first strokes - and he became guilty and cynical about his own nature, and began to despise himself because he had put his faith in the possibility of significant,  of miraculous, event.]

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Norman Rush - Mortals - efeitos de consciência

É uma equação esdrúxula, mas a melhor forma de resumir o Norman Rush para mim é David Foster Wallace + formação clássica + Dostoievski. Esdrúxula, como toda equação que trata de literatura, e também por tomar como base interpretativa um autor que é mais jovem do que o discutido, mas ela ajuda a entender um pouco do fascínio que o livro alcança.

Ele é David Foster Wallace no ímpeto que também tem de fazer um relato preciso dos movimentos de consciência de um personagem. Se a defesa clássica da prosa de ficção sobre outros meios mais rápidos de transmissão de narrativas (cinema, quadrinhos, etc) é que apenas ela tem o poder de naturalizar a consciência de outra pessoa, colocando os pensamentos em meio à ação sem sobrepesar o andamento da história, o Norman Rush sem dúvida seria um dos cúmulos desse aspecto supostamente intrínseco à nossa desvalorizada arte. Tudo que ocorre no livro é mediado (e por vezes interrompido em sua continuação) pela consciência meticulosa e obsessiva do protagonista, a ponto de que os acontecimentos (que são até bastante dramáticos e envolventes) parecem que são apenas o acompanhamento do principal que é a subjetividade do personagem e sua capacidade reflexiva.

 Por mais inteiros que pareçamos por fora (em geral para pessoas que não nos conhecem bem), somos frequentemente uma bagunça por dentro, e mesmo as nossas certezas mais aparentemente sólidas são alcançadas por contradições rapidamente resolvidas intra-cranianamente na medida em que nos deparamos com novas informações. Nossos raciocínios não alcançam as conclusões com as quais vivemos e agimos na vida de maneira imediata, e mesmo essas conclusões que parecem sólidas feito pedra desaparecem até mesmo sendo substituídas pelo seu oposto ante uma situação nova: a máxima clássica de que o personagem bem-feito é aquele capaz de surpreender o leitor é apenas xerox da realidade que somos capazes de surpreender a nós mesmos com nossas próprias reações. Um trauma superado ressurge como se estivéssemos na estaca zero, nos vemos mais covardes (ou quem sabe mais corajosos) do que esperávamos em certo momento urgente, somos incapazes de seguir com planos a princípio perfeitamente traçados.

O raciocínio de Ray Finch, protagonista do livro, é construído aos olhos do leitor como num programa de tutorial de como-se-faz, como-se-é-humano, numa naturalidade que o que termina por surpreender é como isso figura como surpreendente, estranho sendo que os outros livros não sejam assim. Um exemplo micro disso é o momento em que ele está diante do novo chefe babaca dele, sintetizado na frase “He hated Boyle, but not really”; os manuais de como-fazer-literatura provavelmente corrigiriam isto por algo do tipo “ele quase odiava Boyle”; aparentemente muito melhor que duas formulações em que a segunda efetivamente corrige a primeira. Uma construção o mais precisa possível a princípio seria melhor do que duas em luta, mas não é apenas o efeito (de consciência) que é valoroso, sua cópia de como funciona a cabeça de uma pessoa: o conteúdo resultante é também diferente. Naquele centésimo-de-segundo antes de vir o próximo pensamento, o protagonista estava realmente com aquela conclusão a respeito de seu chefe. O livro é inteiro assim (geralmente em frases bem mais alongadas), feito de percepções que se acumulam e se substituem sem nunca ficarem confusas, e sim uma precisão ao mesmo tempo absoluta e borrada, criando uma proximidade quase estranha com a realidade.

Quanto à formação clássica, é na verdade uma expressão incorreta, já que não se trata das grandes figuras da antiguidade (Cícero, etc), e sim uma erudição naturalizada relativa à tradição literária da língua inglesa. A diferença com Foster Wallace, que de fato tinha toda essa formação gigantesca que a nós (mais) mortais parece francamente inatingível, é que ele trazia o mundo midiático como tema constante de sua obra, enquanto o Norman Rush (seu personagem, mas, convenhamos, claramente também o autor) tem todo o estranhamento despudorado com o ““”emburrecimento“”” (aspas entre aspas) do mundo contemporâneo que se espera de um estereótipo de intelectual, como uma lamentação de que o vocabulário comum atual é supostamente menor do que o nos anos 1950 (para mencionar uma das muitas lamúrias ocasionais de Ray).

No entanto, o efeito dessa formação sólida do autor, reproduzida no protagonista, é um texto desavergonhadamente inteligentíssimo, carregando sua cultura como quem carrega aspectos de sua pessoa que são naturais (e não longamente adquiridos), não hesitando em exibir um dos efeitos que a leitura contínua e compulsiva produz na mente de quem embarca nessa jornada. Parece que o francês tem uma expressão “mobiliar sua mente” no que diz respeito ao hábito de leitura, quando me parece mais próximo do real é uma espécie de povoamento fantasmático da consciência, em que figuras literárias que lhe causaram impacto como que aparecem de repente em meio aos seus pensamentos, seja para ecoar de novo uma frase que tenha ficado por um tempo ou permanentemente (às vezes nos lançando numa busca de origem, “quem mesmo que falou isso?”), ou para dar uma opinião (imaginária, claro, reconstituída pelas impressões do próprio leitor, mas que ressoa como inteiramente verídica) sobre o que se tem diante de si, não apenas em momentos de fruição de obras de arte.

Percebemo-nos habitando aquele espaço a princípio da burrice, de ficar pensando várias vezes “esse cara é mesmo muito inteligente”; é claro que existem várias inteligências diferentes dentro do conceito uno de inteligência, seja rapidez de raciocínio, erudição (até os burros, por insistência, conseguem algum acúmulo), aptidões múltiplas e nada-complementares. Mas com o tempo nos vemos voltando (e até ansiando pela experiência desse retorno) de simplesmente nos admirarmos com a capacidade (ou conquista) incomum e improvável de certas obras, em que de repente de novo tudo que concerne a mente parece ser uma questão classificável e que estamos diante de alguém extraordinário como que naturalmente.

Já a parte Dostoievski, vem muito da constatação do Foster Wallace da disposição desabrida do russo de fazer sua obra um palco para discussões detidas e do mais alto nível de seriedade. Qualquer leitor/espectador mais interessado vai se dando conta que a lacuna é parte fundamental de qualquer obra de arte; não só não é possível falar tudo, como é nada desejável falar o máximo. O que muitos artistas optam por fazer a partir daí é de certa forma contornar de várias formas suas questões principais: uma tristeza é expressada por silêncios, ou pelo cenário, em vez de jogada na mesa, o texto se alongando como que em órbita em relação a um centro tornado tabu. O pessoal do new-criticism chamava isso de objetivo-correlativo, se me lembro corretamente: não é possível falar de amor, portanto falamos de primavera, flores, etcéteras. O risco de ignorar essa boa regra é sair da ineficácia (“que tédio, outra história que metaforiza pela tempestade as inquietações humanas”) e cair no ridículo ou ensaístico/analítico, transformar a narrativa em um tratado descritivo pretensamente minucioso das emoções humanas.

Dostoievski não tinha medo de encenar longas discussões a respeito dos tópicos que considerava importantíssimos, espichar monólogos que buscavam expressar com exatidão exaustiva o estado de espírito de seus personagens, exatamente o quão comovidos ou destruídos eles estavam pelo mundo circundante. A mesma coisa com o Rush. Nunca li um livro tão disposto a falar longamente do amor e da paixão, sexual e de afinidades, aquela intimidade aprofundada que se desenvolve como se fosse um pedaço sempre tateável da subjetividade de uma pessoa. Seu primeiro romance, Mating, um relacionamento que se inicia; o Mortals, um relacionamento já de muitos anos, enfrentando uma crise. Não é apenas nesse sentido: os romances tem ambientação em Botswana, com os personagens americanos descrentes e mesmo assim encantados com o lugar, e acaba por passar por discussões a respeito de geopolítica, cultura local, papel dos Estados Unidos no mundo, sem que (como parece mais comum) sejam coisas mencionadas apenas para constarem como existentes e serem rapidamente colocadas de lado, para o romance tratar do que realmente importa, a narrativa e o enlace emocional.

A naturalidade com que o livro desenvolve essas três frentes, a minúcia da consciência, a gigantesca carga cultural e a importância do assunto tratado, é absolutamente espantosa. Parece contemporaneamente mais seguro apostar no ressalto do que há de artifício em arte, narrar apenas depois de avisar várias vezes que há muito que não será narrado, a nova forma de erguer a cabeça é abaixar a cabeça. Mortals chega a ser quase um livro do século dezenove em sua pretensa solidez. Tem seu quê de excessivo e digressivo, trechos inteiros que poderiam ser cortados sem prejuízo para o todo (meia página falando mal da transformação/consagração de Joyce de escritor realista em puzzlemaker, pontuada por um singelo “fuck him”); pela recepção crítica que teve, parece que seu livro mais recente, Subtle Bodies, mais curtinho, sofre justamente por certo desajuste de velocidade: demora demais para construir seu mundo sem ter o espaço e demora necessários para o acúmulo e o efeito de resolução. Lerei. Norman Rush para mim está na categoria de grandeza que até os fracassos interessam.

J.G. Ballard diz na introdução de seus contos reunidos que lamenta a queda de status que a short story sofreu durante seu tempo de vida: no início de carreira eram várias as revistas literárias (de ficção científica ou não) que buscavam novos talentos e conseguiam vendagem para se manter, enquanto hoje parece que o campo virou quase todo para os romancistas. Ele fala que acha isso curioso, pois conhece vários contos perfeitos e nenhum romance perfeito. Já eu acho que está justamente aí um dos segredos dessa predominância: essa imperfeição é como um efeito de realidade, em que nem tudo cabe a uma máquina central de sentido, encaixado com exatidão: há sobras, excessos, espaços em branco que não são meticulosamente esculpidos por um texto-moldura. Certo aspecto intangível de inacabado, do livro que de certa maneira poderia continuar e não continua, o livro que poderia calar e se alonga. Claro, muito difícil de definir qual a medida disso em que realmente entra no espaço do erro e da imperícia, mas essa dificuldade de definição é também indício de que algo que é real foi capturado.

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Trechinho, traduzido por este que vos posta:

It never changed for him, seeing her again after a day’s separation, or even less. He felt a flowing, objectless gratitude so strong it weakened him. He wanted her touch. It was permanent with him. She put her hands on him and slipped one hand through the unbuttoned top of his shirt. She was wearing a plain white sundress and she was barefoot. The shape of her heavy hair against the light and the scent of it as he put his face into her hair were perfections, were absolute things. He was forty-eight. She was thirty-eight. A pleasure he had was catching flashes of surprise in people’s expressions when she told her age, which she was always truthful about. He often had the satisfaction of seeing people look at him, obviously wondering what it was about him that they weren’t seeing that made it reasonable for a woman of this quality to be with him, be his. He had always looked his exact age. And he also liked seeing them being given pause by someone at her level of physical beauty dealing with people so much more nicely than she should be, on their past experience of great beauties, which she was, which she was. These were instantaneous moments, but real. She was a democrat, a spiritual democrat. And then with women, and gay men too, sometimes, he would get the moment when they tried subtly to ascertain if they could possibly be right in their first impression that Iris was wearing hardly any makeup. There was a way they widened their eyes briefly and then focused again. Iris wore next to no makeup.
He wanted the touch of her breath on his throat. When they embraced after being
separate that was what he wanted first.
“You are so beautiful,” she said.
“So say we all,” he said, being wry.
A line came to him, I am the mirror you breathe on. It wasn’t quite right, though. If he wrote poetry what he would want would be a line that united holding a mirror up to the mouth and nose of a particular beloved to see if she was still alive with the mirror being the fixed register of her personal beauty. Could the line be I am the mirror your breath is for? He thought. No because it’s slightly sinister. No because it’s stupid. This was why genius would be so handy if you had it. Iris had no real appreciation of how beautiful she was. She was sealed off from that by her past, complications in her past, and he lacked the genius to strike through and say Look what you are! Look! and have her believe it.

Nunca mudava para ele, vê-la de novo depois da separação de um dia, ou até menos. Ele sentia uma gratidão fluente e desobjetificada tão forte que chegava a enfraquecê-lo. Ele queria o toque dela. Era permanente com ele. Ela colocou suas mãos nele e deslizou uma mão pelo topo desabotoado de sua camisa. Ela estava de vestidinho branco e sem estampas e ela estava descalça. A forma de seu cabelo pesado contra a luz e a fragrância quando ele colocava seu rosto no dela eram perfeições, eram coisas absolutas. Ele tinha quarenta e oito anos. Ela tinha trinta e oito. Um prazer que ele tinha era capturar flashes de surpresa nas expressões das pessoas quando ela dizia sua idade, em que ela nunca mentia. Ele frequentemente tinha a satisfação de ver pessoas olharem para ele, obviamente ponderando o que ele teria que eles não estariam vendo para tornar razoável que uma mulher dessa qualidade ficasse com ele, fosse dele. Ele sempre teve a aparência exata de sua idade.  E ele também gostava de vê-los pausar por estarem diante de alguém em seu nível de beleza física lidando com pessoas de maneira muito mais agradável do que ela deveria fazer, em suas experiências passadas com grandes belezas, que ela era, que ela era. Esses eram momentos instantâneos, mas reais. Ela era uma democrata, uma democrata espiritual. E então com mulheres, e homens gays também, ele teria o momento em que eles sutilmente tentariam averiguar se era possível que eles poderiam ter tido razão em sua primeira impressão que Iris não estava usando quase nenhuma maquiagem. Existia um jeito em que eles alargavam seus olhos brevemente e então focalizavam de novo. Iris não usava quase nenhuma maquiagem.
Ele queria o toque de seu respirar em sua garganta. Quando eles abraçavam depois de ficarem separados era isso que ele queria primeiro.
“Você é tão belo” ela falou
“É o que dizemos todos” ele falou, sendo irônico

Uma frase veio a ele eu sou o espelho em que você respira. Não estava bem certa, no entanto. Se ele escrevesse poesia o que ele ia querer era uma linha que unisse o segurar do espelho na boca e nariz de uma pessoa amada em particular para ver se ela ainda estava viva com o espelho sendo o registro fixo de sua beleza pessoal. Poderia a frase ser Eu sou o espelho para qual serve seu respirar? Ele pensou. Não porque é ligeiramente sinistro. Não porque é idiota. Era por isso que genialidade seria tão útil se a você tivesse. Iris não tinha apreciação real de como ela era bela. Ela foi isolada disso pelo seu passado, complicações de seu passado, e a ele faltava a genialidade para adentrar com um impacto e dizer Olhe o que você é! Olhe! e vê-la acreditar.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Adendo ao post sobre Suttree - a linguagem

(Era para ter sido escrito um dia ou dois depois do primeiro post: eis um calendário exato da procrastinação, a distância desse de agora pro anterior.)
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Toda tradução é uma traição, blá blá blá, mas o caso de Suttree é realmente interessante por suas especificidades estéticas. Discuti uma questão parecida com essa num post de uns anos atrás sobre a dificuldade inerente/estrutural de traduzir Infinite Jest: alguns romances não apenas usam o idioma em que foram escritos, eles realmente existem dentro de sua linguagem. O inglês não é meramente o meio, é como se fosse parte do corpo da obra. Colocá-lo em outro idioma não é colocar um cantor de voz diferente para a mesma música, é escolher outro instrumento: um piano não consegue alongar suas notas, um clarinetista não tem as duas mãos produzindo notas diferentes.

No caso do Infinite Jest era a maleabilidade prática maior do idioma de origem que atrapalhava sua existência mais assemelhada no português (vale dizer mais uma vez que a tradução do Galindo me pareceu ser a melhor possível), já o problema com o Suttree é de ordem histórica. O inglês é um idioma vira-lata: estrutura meio germânica, léxico em grande parte do latim, por influência histórica francesa. Frequentemente existem duas palavras que expressam a mesma ideia, com uma sendo originária do latim, tida como a mais rebuscada ou erudita. Lembro-me dos coleguinhas da sexta série da época em que morei por lá com a piadinha “we saw you masticate yesterday at lunch”, apostando na semelhança sonora com “masturbate”. Saber que aquilo era mastigar, ou “chewing”, no inglês comum, era coisa para os iniciados, quem já tinha ouvido a piadinha antes. É até engraçado que um leitor brasileiro às vezes vai ter mais facilidade do que um americano com o vocabulário do Infinite Jest, por sua recorrente incursão nas versões rebuscadas das palavras.


Suttree, com todo seu tutano primitivista indisfarçável, trabalha na linguagem a questão da superficialidade do que temos e tentamos ter de civilização. Os adjetivos no livro frequentemente são substituídos com criações verbais aglutinadoras bastante transparentes, como certo momento em que uma máquina é descrita como “spiderlike” (em vez de arachnid – palavra do latim). Não se trata de uma rejeição completa e purista das palavras dessa origem: elas aparecem, mas em contexto em que o que elas tem de estrangeiro fica radicalmente ressaltada, frequentemente em tom científico, tentativa humana fracassada e meio-fake de domar a natureza e o mundo circundante. Temos uma divisão de autenticidade/naturalidade versus inteligência/artificialidade expressada na forma como o romance respira. O tradutor para o português não tem caminho certo para onde ir, nesse quesito: as palavras arcaicas ocasionalmente desenterradas pela narrativa provavelmente soarão como erudição bacharelesca, e não retiradas de paredes de cavernas, de fogueiras há milênios apagadas e de rastros milagrosamente descobertos.